Estava pesquisando sobre o primeiro álbum solo de Paul McCartney, lançado em 1970, quando uma informação me chamou a atenção: boa parte do disco foi gravada em casa, usando um gravador Studer de quatro pistas.
Quatro pistas.
Eu tenho um Zoom H5, um pequeno gravador digital portátil que também permite trabalhar com quatro canais de áudio. Uso o equipamento para gravações, mas nunca tinha pensado nele dessa maneira.
A comparação me deixou curioso. Será que eu conseguiria gravar um disco utilizando basicamente os mesmos recursos que McCartney tinha à disposição naquele momento?
Pelo que encontrei, posso experimentar um processo parecido: gravar instrumentos sucessivamente e construir uma música em camadas. Isso ainda é uma possibilidade que quero testar, com algumas diferenças importantes.
Um Studer na sala de casa
No final de 1969, enquanto os Beatles atravessavam seus últimos meses como grupo, McCartney instalou um gravador Studer J37 em sua casa, em Londres. O registro das sessões domésticas no The Paul McCartney Project identifica a máquina e descreve esse começo.
Era um gravador profissional de fita magnética. Mas a configuração doméstica de Paul estava longe de ser um estúdio completo.
Na entrevista que acompanhou o lançamento do álbum, ele contou que tinha um único microfone e trabalhava sem mesa de mixagem nem medidores VU. Quando perguntaram sobre seu equipamento, resumiu:
Studer, one mike and nerve.
Um Studer, um microfone e coragem.
O método era relativamente simples. Gravava uma parte, ouvia pelos fones enquanto registrava outra e acrescentava instrumentos nas pistas disponíveis.
Foi assim que começou McCartney.
Na mesma entrevista de lançamento, Paul explica que The Lovely Linda nasceu como um teste do gravador. Registrou voz e violão, acrescentou outro violão, percussão feita com as mãos sobre um livro e, finalmente, o baixo.
Uma experiência para verificar o funcionamento da máquina acabou abrindo o disco.
O álbum também passou pelos estúdios EMI e Morgan, onde houve gravações e mixagens. Não foi uma produção inteiramente doméstica. Mas sua origem estava naquele processo de experimentação com quatro pistas.
Meu pequeno estúdio de quatro canais
Aqui entra o meu Zoom H5 original.
Comparado ao Studer de McCartney, é um equipamento minúsculo. Funciona com pilhas, grava em cartão SD, possui microfones integrados e cabe facilmente em uma mochila.
Não tenho o caráter sonoro da fita magnética, mas também não preciso lidar com seu desgaste e manutenção. A qualidade digital não me parece ser o obstáculo para começar essa experiência.
O mais interessante é que o H5 permite trabalhar com overdubbing: gravar uma parte musical, ouvi-la enquanto registro outra e construir a música em camadas.
O manual do H5, nas páginas numeradas 33–36, confirma esse recurso no modo MULTI FILE, com arquivos WAV a 44,1 ou 48 kHz. A mixagem estéreo é descrita nas páginas 54–55.
Há uma diferença em relação a imaginar quatro pistas mono independentes: o aparelho organiza os canais como L/R, um par estéreo, mais as pistas 1 e 2. Uma gravação estéreo ocupa dois canais. Por isso, violão, baixo, guitarra e voz não cabem automaticamente como quatro partes separadas nessa configuração.
Posso usar uma mixagem intermediária como base e continuar acrescentando instrumentos. O manual também descreve esse procedimento. Combinar partes reduz a liberdade de ajustar cada uma dentro daquela mixagem, embora o H5 preserve arquivos anteriores de overdubbing.
Mas o princípio que me interessa está ali: ouvir o que já gravei e acrescentar outra parte.
E descobri algo curioso nessa comparação: para experimentar o processo doméstico de McCartney, não preciso necessariamente de um computador, de uma interface de áudio separada ou de um software de produção musical.
O pequeno gravador que já possuo oferece um ponto de partida.
DAWless antes de existir DAW
DAWless é o nome usado para produzir música sem depender de uma Digital Audio Workstation, um software de produção musical como Reaper, Logic ou Ableton Live.
Aqui uso o termo para uma escolha bem concreta: gravar e fazer a mixagem no aparelho, sem recorrer ao computador.
McCartney não estava fazendo uma declaração contra softwares de produção musical. Chamar aquele processo de DAWless é uma comparação minha, feita retrospectivamente.
A música era construída diretamente no equipamento, manipulando instrumentos, microfones, gravações e decisões sucessivas.
Não havia uma tela mostrando dezenas de pistas.
Era preciso tocar, ouvir, decidir e continuar.
Não quero romantizar as limitações técnicas daquela época. Não sei que escolhas McCartney faria com as ferramentas de hoje.
Mas existe algo que me atrai em trabalhar com poucos elementos.
Quatro canais me fazem pensar no arranjo. Se quero acrescentar um instrumento, preciso encontrar espaço para ele. Se preciso de mais camadas, talvez tenha que combinar pistas e aceitar menos liberdade para alterar aquela combinação depois.
Quero descobrir como isso afeta minha maneira de produzir.
A tecnologia que já tenho
Tenho pensado bastante sobre ferramentas, tecnologia e autonomia. A disposição de aprender também aparece em Linhas, botões, ovelhas e a vida comum, a partir de outra passagem da vida de McCartney.
Às vezes, compramos equipamentos imaginando possibilidades que nunca chegamos a explorar. Depois procuramos outro aparelho que promete resolver justamente aquilo que o anterior já era capaz de fazer.
Meu Zoom H5 é um bom exemplo. A decisão de experimentar o home theater antes de comprar uma caixa FRFR parte de uma pergunta parecida: o que consigo fazer com o equipamento que já tenho?
Eu poderia transferir os arquivos para um software e trabalhar com mais pistas.
Nada contra isso. É uma maneira de produzir música que também está ao meu alcance.
Mas também posso desligar o computador, colocar os fones, pegar um instrumento e começar uma gravação diretamente no H5.
Uma parte de cada vez.
Sem me preocupar inicialmente com plugins, interfaces, configurações ou com a quantidade de recursos de um estúdio no computador.
Isso não significa que conseguirei produzir um álbum como McCartney. O equipamento nunca foi a parte mais importante daquela história. Entre o Studer e o Zoom H5 existe uma diferença tecnológica enorme; entre mim e Paul McCartney existe uma diferença musical ainda maior.
Mas o processo está ao meu alcance.
E isso, por si só, já é bastante interessante.
Um experimento que quero fazer
Pensei em estabelecer uma regra simples: gravar uma música inteira utilizando somente o Zoom H5.
Começar com uma ideia de violão ou guitarra, acrescentar o baixo, experimentar uma percussão e trabalhar dentro dos quatro canais disponíveis.
Fazer tudo no aparelho, inclusive a mixagem, sem recorrer ao computador.
Quero experimentar o que acontece quando aceito trabalhar dentro de um conjunto pequeno de possibilidades.
McCartney começou seu álbum testando uma máquina.
Talvez eu deva começar testando melhor a minha.
O Studer dele era um equipamento profissional instalado em uma casa de Londres em 1969. O meu é um pequeno gravador digital comprado mais de meio século depois.
Ambos permitem registrar instrumentos sucessivamente, construir arranjos e transformar uma experiência doméstica em música.
A tecnologia mudou muito. A ideia continua surpreendentemente parecida.