Outro dia, enquanto costurava, fiquei pensando numa coisa: cozinhar, costurar, lavar roupa, trocar uma tomada, fazer pequenos reparos. São habilidades básicas que vale a pena aprender. Não para ser especialista em tudo, mas para ser um ser humano funcional.
Nunca tive como ideal aquele personagem do executivo bem-sucedido que se orgulha de não saber lavar a própria roupa. Como se a posição profissional o dispensasse das atividades mais simples da existência.
Costurar, por exemplo, me traz uma lembrança antiga. Eu costumava ir ao armazém do bairro buscar linhas e botões para minha cunhada. Ela era costureira e também uma cozinheira de mão cheia. Sempre admirei sua habilidade.
Não era apenas saber fazer. Havia conhecimento, experiência, destreza e uma inteligência prática naquele trabalho. Uma roupa que precisava ser ajustada, uma refeição preparada com cuidado, coisas que fazem parte da vida e que nem sempre recebem o reconhecimento que merecem.
Admiro minha cunhada no mesmo nível em que admiro Paul McCartney.
E não estou exagerando para provocar.
Paul McCartney cuidando de ovelhas
Recentemente, voltei a pensar nisso ao conhecer melhor uma passagem da vida de Paul McCartney.
Depois da separação dos Beatles, Paul e Linda passaram um período na fazenda na Escócia. Na entrevista à Pitchfork de junho de 2012, reproduzida pelo The Paul McCartney Project, ele conta que foram para lá para se afastar das reuniões e da pressão dos negócios em Londres.
Paul, já conhecido no mundo inteiro por seu trabalho com os Beatles, aprendeu até a tosquiar ovelhas.
Nessa entrevista, ele contou que havia um homem que tosquiava cerca de cem ovelhas por dia, enquanto ele conseguia tosquiar umas cinco. Era um aprendiz. E gostava de aprender aquilo.
Em outra entrevista, publicada em seu site oficial em novembro de 2021, falou sobre aprender a construir uma mesa, cortar lenha e dirigir trator. Coisas que não sabia fazer e que foi aprendendo.
Gosto muito dessa imagem.
O homem que ajudou a escrever tantas músicas que admiro também precisava aprender a trabalhar com madeira e cuidar de animais. E não parecia enxergar nenhuma contradição nisso.
O que me chama a atenção é o interesse em aprender, mesmo contando com ajuda na fazenda. Ele reconhecia a diferença entre sua habilidade e a de quem dominava o trabalho.
A vida rural também entrou em sua música. Na entrevista de 2021, Paul diz que as experiências com os animais e a natureza influenciaram Ram, álbum de Paul e Linda lançado em 1971.
A vida comum não estava separada do trabalho artístico. Fazia parte dele.
Outra cena doméstica de McCartney aparece em O DAWless de McCartney e o meu: a gravação em quatro pistas que me fez olhar de outro jeito para o gravador que já tenho.
Sem vida cotidiana, não existe arte
No documentário It’s Never Over, Jeff Buckley, há uma passagem que me chamou a atenção.
Jeff Buckley fala sobre Chris Cornell, músico do Soundgarden, e sobre sua capacidade de conciliar a música com a vida fora dos palcos.
Em determinado momento, Buckley diz:
“Without ordinary life, there’s no art.”
Sem vida cotidiana, não existe arte.
É uma frase curta, mas fiquei pensando nela.
A arte não nasce necessariamente de uma existência extraordinária. Muitas vezes nasce justamente do contato com as coisas comuns: as relações, o trabalho, as refeições, as dificuldades, o descanso, as pessoas que encontramos.
É preciso viver para ter alguma coisa a dizer.
O que significa ser funcional
Não estou defendendo que todo mundo deva fazer tudo sozinho. Dividir tarefas, contratar profissionais e recorrer a especialistas faz parte da vida em sociedade.
Aliás, quanto mais tento fazer certas coisas, mais respeito quem realmente domina um ofício.
Minha costura não se compara ao trabalho de uma costureira experiente. Assim como as cinco ovelhas de Paul não se comparavam às cem do homem que lhe ensinava.
Mas existe uma diferença entre reconhecer a competência de outra pessoa e cultivar a própria incapacidade como sinal de status.
Aprender o básico nos dá autonomia. Também nos ajuda a reconhecer a complexidade das atividades que costumamos chamar de simples.
Uma boa costureira resolve problemas. Uma boa cozinheira transforma ingredientes, organiza tempos, combina sabores e alimenta pessoas. Há técnica, criatividade e experiência nas duas atividades.
É um tipo de inteligência que merece tanta consideração quanto aquela que costumamos associar a profissões mais prestigiadas.
Admiro quem sabe fazer alguma coisa bem-feita. E admiro quem continua disposto a aprender.
Linhas e botões
Hoje, quando costuro alguma coisa, não penso que estou praticando uma grande arte. Estou apenas resolvendo algo da minha vida.
Mas gosto de saber fazer.
E gosto de lembrar que, muito antes de pensar nessas questões, eu já convivia com uma pessoa que dominava dois ofícios extraordinários: costurar e cozinhar.
Minha cunhada não precisava de palco, disco de ouro ou reconhecimento público para merecer minha admiração. O que ela fazia tinha valor por si só.
Paul McCartney continua sendo uma das minhas grandes referencias musicais. Mas a imagem dele aprendendo a tosquiar ovelhas me interessa tanto quanto algumas histórias sobre suas gravações.
Sem vida cotidiana, não existe arte.