Música

De Tóquio a Jorge Ben, e de Jorge Ben a Rod Stewart

Se quiser usar este texto como ponto de partida para ouvir mais, peça um roteiro de escuta ao ChatGPT ou ao Claude .

Uma versão de “Taj Mahal” pelo 45trio me levou de volta a Jorge Ben; uma conversa durante a aula de inglês acrescentou Rod Stewart ao caminho.

Eu estava ouvindo uma coletânea de jazz da cena japonesa quando uma música começou a soar estranhamente familiar.

Não era aquela sensação de reconhecer imediatamente uma gravação. Era mais vaga: eu conhecia aquilo de algum lugar. A melodia, o movimento, alguma coisa já estava guardada na memória.

Fui olhar.

Era o 45trio tocando “Taj Mahal”.

E então tudo se encaixou: era Jorge Ben.

Gosto quando isso acontece porque a descoberta funciona ao contrário. Em vez de partir de uma música conhecida para procurar suas versões, encontrei primeiro a releitura japonesa e só depois fiz o caminho de volta até a origem.

O 45trio é um trio de piano formado em Tóquio que se move entre soul, hip-hop, jazz-funk e rare groove. Na versão lançada em 2020, “Taj Mahal” continua perfeitamente reconhecível, mas aparece dentro de outra paisagem sonora.

É o mesmo grupo sobre o qual escrevi em “O pianista morto apareceu a mim no Japão”.

Minha pequena sequência de descobertas naquele momento era:

45trio → Jorge Ben

Comentei isso algum tempo depois com meu professor de inglês. Mostrei a versão do 45trio e contei justamente sobre esse reconhecimento: estava ouvindo jazz japonês, alguma coisa me pareceu conhecida e acabei chegando novamente a Jorge Ben.

Ele ouviu e me contou outra história.

— Você conhece a história dessa música com Rod Stewart?

Eu conhecia “Da Ya Think I’m Sexy?”, claro. Mas nunca tinha colocado as duas músicas lado a lado.

A sequência ganhou então mais uma seta:

45trio → Jorge Ben → Rod Stewart

“Taj Mahal” apareceu no álbum Ben, de 1972. Seis anos depois, Rod Stewart lançou “Da Ya Think I’m Sexy?”, cujo refrão carrega uma semelhança difícil de ignorar com a melodia de Jorge Ben.

Depois que alguém aponta, fica complicado desouvir.

A história que chegou até mim — e que conto aqui sem nenhuma pretensão de reconstruí-la com precisão de historiador da música — é mais ou menos esta.

Segundo o relato que o próprio Stewart publicou em sua autobiografia de 2012, ele ouviu “Taj Mahal” durante o Carnaval do Rio de 1978. A melodia teria ficado guardada na memória e ressurgido mais tarde enquanto ele procurava uma linha para o refrão de “Da Ya Think I’m Sexy?”. Stewart chamou o episódio de plágio inconsciente.

Esse é o relato de Stewart, não uma reconstrução independente do que aconteceu no estúdio.

Jorge Ben contestou a semelhança, e a história passou por uma disputa sobre os direitos da música. Há versões ligeiramente diferentes sobre o acordo, sua cronologia e a destinação dos royalties à UNICEF. Uma síntese recente sobre o caso chega a ressalvar a cronologia apresentada pelo cantor.

Não é essa parte que mais me interessa.

O que me interessa é o trajeto.

Uma música de Jorge Ben, gravada no Brasil no começo dos anos 1970, atravessa fronteiras. Em algum momento chega aos ouvidos de Rod Stewart. Décadas depois, três músicos japoneses a transformam novamente e ela reaparece numa coletânea de jazz que estou ouvindo.

Eu reconheço alguma coisa.

Vou atrás.

Encontro Jorge Ben.

Conto a descoberta durante uma aula de inglês.

E meu professor coloca Rod Stewart no caminho.

É uma das coisas de que mais gosto quando começo a prestar atenção na música para além da gravação que está tocando naquele momento. O catálogo deixa de ser uma coleção de discos independentes e começa a parecer uma rede.

Uma música aponta para outra.

Às vezes por influência.

Às vezes por uma versão.

Às vezes por uma apropriação um pouco mais complicada.

E às vezes porque, no meio de uma aula de inglês, alguém escuta o que você acabou de descobrir e pergunta:

— Você conhece a história do Rod Stewart?