O pianista morto apareceu a mim no Japão.
Algumas semanas antes, eu havia conhecido Francisco Tenório Jr. em Atiraram no Pianista. O documentário acompanha a investigação sobre seu desaparecimento em Buenos Aires, em 1976, e recupera, junto com ele, uma parte da música brasileira e da violência política das ditaduras sul-americanas.
Naquela história, Tenório aparecia por meio da ausência.
Agora apareceu tocando numa música que ele nunca compôs.
Uma música imaginada para Tenório
Encontrei o 45trio e três faixas chamaram minha atenção quase ao mesmo tempo: “#Tenorio”, “Saudade Vem Correndo” e “#Hutson”.
Comecei por “#Tenorio” porque reconheci o nome. Imaginei que fosse uma versão de alguma composição do pianista brasileiro. Não era.
“#Tenorio” é uma composição original do trio japonês. Segundo a apresentação do single pela Flower Records, a faixa foi escrita como homenagem a Tenório Jr. O próprio SWING-O, pianista e líder do grupo, explicou depois a ideia: imaginar se Tenório, caso ainda estivesse vivo, poderia ter escrito uma música assim.
Foi aí que o pianista morto apareceu a mim no Japão.
Não como reconstituição histórica. Também não como uma gravação perdida. Ele apareceu dentro da imaginação musical de outro pianista, num país distante e quase cinquenta anos depois de seu desaparecimento.
Existe alguma coisa bonita e estranha nesse tipo de homenagem. Em vez de tocar apenas uma obra já existente, alguém tenta escrever dentro do vocabulário que associa ao músico homenageado. A música nova não pertence a Tenório. A pergunta que a produziu, porém, depende daquilo que ele deixou.
O caminho de volta até Embalo
O single ajuda a tornar essa relação mais clara. De um lado está “#Tenorio”, a composição imaginada pelo 45trio. Do outro, “Nebulosa”, composição de Tenório Jr. lançada em Embalo, de 1964.
O registro de Embalo no Instituto Memória Musical Brasileira mostra um disco cercado por músicos como Milton Banana, Raul de Souza, Paulo Moura, Hector Costita, J. T. Meirelles e Rubens Bassini. Foi o único álbum que Tenório lançou como líder.
Passei então a ouvir em duas direções.
Primeiro, “#Tenorio”, uma música nova feita a partir da lembrança de um músico. Depois, as duas versões de “Nebulosa”: a do 45trio e a de Tenório Jr. e Seu Conjunto.
A homenagem passou a funcionar como uma porta de retorno. O trio não me levou somente para sua própria discografia. Levou-me de volta a 1964 e a um disco que eu ainda não havia escutado dessa maneira.
Um trio japonês com muitas geografias
O 45trio foi formado em 2008. Hoje reúne SWING-O, no piano, SUNAPANNG, no baixo, e Masahiko Kubo, na bateria. O grupo se apresenta como um trio ligado ao soul e ao hip-hop e diz considerar a cena de clubes seu lugar de origem, mesmo depois de passar por festivais como Fuji Rock e Summer Sonic.
Isso me ajudou a entender por que classificá-lo apenas como jazz japonês deixa coisas demais de fora.
Outra das faixas que me trouxe até o grupo foi “Saudade Vem Correndo”. A composição de Luiz Bonfá e Maria Toledo foi gravada por Stan Getz e Luiz Bonfá em 1963 e reapareceu, décadas mais tarde, no sample usado por J Dilla em “Runnin’”, do The Pharcyde. A própria apresentação da versão do 45trio explicita essa ligação com o hip-hop.
Minha escuta começou então a desenhar um percurso improvável:
samba-jazz brasileiro → hip-hop norte-americano → trio japonês de piano.
Mas as setas não apontavam apenas para a frente. Cada faixa também convidava a andar para trás.
“Saudade Vem Correndo” levava a Luiz Bonfá, Maria Toledo, Stan Getz, J Dilla e The Pharcyde. “#Tenorio” levava a “Nebulosa” e a Embalo. “#Hutson”, a terceira música que me chamou a atenção, levava ao soul de Leroy Hutson e também a Weldon Irvine.
Em vez de uma discografia fechada, encontrei um mapa.
Retratos escritos com música
“#Tenorio” faz parte de uma série de composições-tributo do 45trio. Há também “#Jamal”, dedicada a Ahmad Jamal, e “#Hutson”, dedicada a Leroy Hutson.
O procedimento me interessa porque não é exatamente o de um cover. O grupo escreve uma música nova usando elementos que associa ao universo do homenageado. São retratos sem rosto, feitos com ritmo, harmonia, timbre e repertório.
Ainda estou começando a ouvir essas relações. Não saberia apontar com segurança quais escolhas harmônicas pertencem a cada referência nem separar tudo o que vem de Tenório daquilo que já é a linguagem do próprio 45trio.
Mas consigo acompanhar a pergunta.
Como escrever uma música nova que faça alguém reaparecer sem fingir que essa música é dele?
O pianista apareceu de novo
Quando assisti a Atiraram no Pianista, Tenório Jr. ficou associado à história de um desaparecimento.
Ao encontrar “#Tenorio”, ele apareceu de outra maneira. Não deixou de ser o músico ausente do documentário, mas voltou a ser também uma possibilidade musical: alguém cuja maneira de tocar e compor ainda provoca outros músicos a imaginar.