Ficção

O ventilador com defeito

Hoje eu tive um sonho. Quase que fica no esquecimento, pois eu nunca sonho. Mas hoje eu sonhei; lembrei disso agora, tenho certeza. Acho que não me senti bem ao sonhar isso; deve ter algo indelicado em algum detalhe, senão eu sorriria ao lembrar de um sonho que nunca tenho.

Eu estava numa loja de penhores, mas não precisava de dinheiro. Entreguei um ventilador e uma guitarra Stratocaster vermelha ao atendente — que devia ser o dono e não se importava muito com dress code e coisas do tipo. Ele, sem olhar o instrumento, me deu vinte reais no negócio. E sabe o que é pior? O pior é que não achei ruim! Como pode um cara qualquer entrar em uma loja de penhores e aceitar entregar uma guitarra por vinte pila?

Pois esse era eu, ouvindo: “Então quer dizer que agora é minha?”, de um cara com barba por fazer, camiseta branca com manchas amareladas, em uma loja com ar viciado. E eu já estava indo embora, como quem não tem mais nada para fazer, e nem sei o que iria fazer com vinte reais. O que se compra com isso? Se compra um pastel ou um refrigerante, mas não os dois juntos.

E era isso: estava indo embora quando o atendente gritou: “Ei, e o ventilador?”. E sabe, a pior parte é que eu falei que não queria receber nada por ele; que ele me fazia um favor de ficar com o ventilador, que tinha quebrado uma alavanca que controlava a oscilação e que eu não aguentava mais vê-lo. Pode uma coisa dessas? E só posso te contar até aí, que é o que lembro, mas posso te falar que sinto uma relação com o violão.

O violão era do homem morto. Enquanto vivo, tocava guitarra fazendo covers do U2. Sempre reclamava da pouca importância que os instrumentos recebiam do público: “Tem o vocalista e tem aqueles caras com um pedaço de pau com corda“, dizia ele gesticulando. Logo explicava que somente alguns diferenciam o bom instrumentista, mas que todos usam diariamente as cordas vocais e conseguem perceber facilmente um bom cantor.

Tentou dedicar uma parte do tempo à música clássica e comprou o violão, um Yamaha tampo sólido, nada muito caro, mas bem construído. Fez aulas em conservatório, tocou algumas peças, mas foi vencido pelos dias e pelo seu senso crítico. Deixou o violão em um canto até que, um dia, a faxineira o derrubou do suporte, lascando o equivalente a uma unha do dedo mínimo, bem na mão do instrumento.

O lascado o incomodava. Quando o visitei, me ofereceu o instrumento em troca de dois frascos de perfumes importados e realizou o prejuízo, tirando de sua vista o lascado. Era perfeccionista, e executar amadoramente um soneto de Bach não bastava. Fazia covers do U2. “Essa banda é gospel”, me dizia. Eu meneava a cabeça e lembrava de ‘Where the Streets Have No Name’. Ele tinha cópias das principais guitarras que The Edge usava. Vendeu um carro popular para comprar os equipamentos que, meses mais tarde, em sua casa, foram consumidos pelo incêndio que o matou.

Preciso limpar o violão lascado na mão. O lascado não me incomoda. É um leve sinal que lembra uma história. Sim, ela aconteceu, tenho certeza.

Quanto ao ventilador do sonho, ainda acho que deveria ter pedido um dinheiro por ele.