Escrita

O que Murakami mudou na minha escrita: ritmo, imitação e memória

Ao revisar minhas notas e rascunhos, percebi como Murakami mudou meu modo de ler, escrever e lidar com a imitação.

Revisando as notas que escrevi nos últimos meses, vejo que Haruki Murakami foi importante para a maneira como passei a pensar minha própria escrita.

Eu o li por dois caminhos diferentes. Em Novelist as a Vocation, encontrei um escritor falando sobre o próprio ofício. Em Kafka à Beira-Mar, encontrei o romancista em ação. Quando reuni as anotações dessas duas leituras, percebi que elas já tinham escapado dos livros e entrado nos meus rascunhos.

Uma ideia sobre o ritmo lento do romancista reapareceu quando tentei escrever ficção. Uma referência musical de Kafka à Beira-Mar me levou a Schubert, Beethoven e Beach Boys. A fuga do adolescente Kafka me levou a Truffaut. Um filme de Truffaut me devolveu a uma sala de aula no Paraná, em 1993.

Eu não percebi essa influência de uma vez. Ela ficou mais clara agora, na revisão. Murakami mudou não apenas algumas coisas que eu queria escrever, mas o modo como passei a ler, ouvir música, rever memórias e admitir minhas imitações. Este texto é uma tentativa de entender esse percurso. Não é uma teoria geral da escrita nem um guia para escrever como Murakami. É o que consigo sustentar a partir das notas e rascunhos que produzi.

Subir a montanha em vez de explicá-la

Uma imagem reaparece nas anotações sobre Novelist as a Vocation: a parábola do Monte Fuji.

Dois homens querem compreender a montanha. Um a observa de diferentes ângulos, compara as vistas e chega rapidamente a uma conclusão. Para o outro, olhar não basta. Ele começa a subir, atravessa caminhos difíceis e só depois da experiência física considera que compreendeu alguma coisa — ainda que não consiga explicá-la por completo.

Na forma como registrei a passagem, Murakami aproxima o romancista do segundo homem. A ficção não seria apenas uma maneira mais demorada de apresentar uma conclusão já disponível. Parte da compreensão aparece enquanto se percorre o caminho.

Relendo isso, reconheço um conflito com meu trabalho em tecnologia e consultoria. Nesses ambientes, decompor um problema, encontrar um modelo e chegar mais depressa a uma decisão costuma ser uma qualidade. Quando tento escrever ficção, a mesma agilidade pode antecipar uma explicação que o texto ainda não viveu.

Subir a montanha, para mim, passou a significar tolerar cenas que ainda não revelaram sua função, acompanhar uma memória até onde ela consegue ir e aceitar que escrever também é uma forma de descobrir o assunto.

Isso não é uma defesa da lentidão em toda escrita. Um relatório e um romance não prometem a mesma experiência. A distinção que ficou comigo foi outra: há coisas que consigo resumir depois de compreendê-las e há coisas que só começo a compreender porque tentei narrá-las.

Escrever também exige corpo e tempo

Em outra página, anotei que escrever um romance durante quatro ou cinco horas por dia exige condição física. A ideia parecia lateral. Agora me parece ligada à mesma imagem da montanha.

Murakami fala de rotina, solidão, paciência e resistência. A página pode ser mental, mas o trabalho acontece num corpo que se cansa, precisa sustentar a atenção e voltar no dia seguinte. A apresentação de Novelist as a Vocation pela editora também destaca a relação entre seu método de escrita, memória e rotina de corrida.

Eu ainda não transformei isso num método próprio. Não medi horas, produção diária ou o efeito do exercício sobre meus rascunhos. A anotação não comprova que determinada rotina funcionaria para mim.

O que ela mudou foi minha desconfiança de um processo dependente apenas de entusiasmo. Se escrever um texto longo é atravessar a montanha, a inspiração não substitui a capacidade de continuar andando.

Também comecei a aceitar melhor uma diferença de cadência. Eu havia descrito a cadência do romancista como lenta e calma, não por falta de clareza, mas porque a matéria precisa permanecer algum tempo sem ser encerrada. Relendo essa ideia, vejo nela uma permissão para não exigir que todo rascunho saiba imediatamente o que quer dizer.

Nem tudo que anoto permanece vivo

É nesse ponto que a leitura de Murakami mais entra em conflito com meu modo de trabalhar. Eu mantenho um vault no Obsidian, faço fichamentos, relaciono referências e registro ideias antes que desapareçam. Ele descreve uma confiança maior na memória.

Em Novelist as a Vocation, a memória aparece como uma espécie de arquivo mental. Detalhes, rostos, conversas e sensações permanecem ali, decantando. Na minha leitura, o esquecimento funciona como filtro: aquilo que não resiste talvez não tivesse força suficiente; o que importa pode reaparecer quando a escrita precisar.

Minha resposta não foi abandonar as notas. Elas preservam fontes, distinguem uma ideia minha de algo lido e me permitem retomar um assunto meses depois. Este próprio texto só existe porque encontrei registros espalhados entre literatura, escrita, música, cinema e diário.

Mas, ao revisá-los, ficou mais claro que guardar uma observação não a torna importante. Criar links não produz, por si só, uma história. A nota conserva o material; o tempo, a memória e a reescrita mostram se ele continua vivo.

Não preciso escolher entre o arquivo mental descrito por Murakami e meu vault. Posso registrar com rigor sem obrigar cada fragmento a entrar num texto. Algumas coisas ficam no arquivo. Outras voltam sozinhas e pedem outra forma.

Imitar deixou de ser uma acusação

Foi nos rascunhos que reconheci a mudança mais pessoal: comecei a admitir a imitação.

Durante a leitura, anotei uma pergunta: se reconheço uma obra clássica porque somente aquele autor poderia tê-la escrito, o que eu poderia escrever que somente eu escreveria? A pergunta ainda me interessa, mas agora percebo como ela pode se transformar numa exigência paralisante de originalidade anterior à prática.

Eu havia registrado duas ideias que pareciam apontar em direções opostas. De um lado, uma obra original cria sua própria lógica e muda o campo ao redor. O exemplo anotado foi A Sagração da Primavera, de Stravinsky: uma obra cuja novidade não se resume a parecer diferente. De outro, a formação de um escritor inclui leitura, tradução, absorção de ritmo e contato prolongado com outras vozes.

Murakami descreve a tradução como uma forma de desmontar uma máquina para entender seu funcionamento e depois montá-la novamente. Ao traduzir autores como F. Scott Fitzgerald e Raymond Carver, ele estudava estrutura, escolha de palavras e pulsação. Na minha leitura, a tradução aparece menos como submissão a outra voz e mais como treino de atenção.

Isso me ajudou a trocar uma pergunta impossível — “isto já nasceu original?” — por perguntas mais concretas: o que estou imitando, qual mecanismo estou tentando compreender e o que acontece quando esse mecanismo encontra a minha matéria?

Um dos meus rascunhos mostra o risco da imitação superficial. Nele, um garoto de quatorze anos observa o plebiscito brasileiro de 1993 enquanto um Corvo fala com ele pela janela. Há uma floresta a atravessar e frases que poderiam ter escapado diretamente do universo de Kafka à Beira-Mar. Eu havia identificado o texto como um exercício em “estilo Haruki Murakami”. Ele tornou a influência visível, mas deixou o mecanismo exposto demais.

Em outro rascunho, chamado O corte do papel, a influência começa a encontrar um material que é meu. A narrativa parte do prontuário que imprimi para controlar os colírios de um cachorro com lesão na córnea. O som da régua cortando o papel leva a uma noite mal dormida, a um sonho em que duas guitarras são quebradas, a Os Incompreendidos e Antoine e Colette, de François Truffaut, e finalmente à lembrança de um professor que, em 1993, ensinava a cortar papel e defendia a monarquia durante o plebiscito.

A lógica associativa e a presença do sonho ainda mostram minha leitura de Murakami. Mas o cachorro, as guitarras, o pão de queijo, o frio da sala, o professor e o plebiscito pertencem à minha experiência. Ao colocar os dois rascunhos lado a lado, esse deslocamento me pareceu mais fértil: não esconder a influência, mas deixar que ela atravesse um material que não poderia vir do autor imitado.

O segundo texto também não está resolvido. Continua como rascunho, com repetições, desvios e trechos a revisar. A influência não produziu uma voz pronta. Produziu trabalho que agora consigo examinar.

Uma leitura foi abrindo outras

Quando agrupei as anotações de Kafka à Beira-Mar, encontrei uma lista extensa: Schubert, Beethoven, Haydn, Mozart, Prince, Radiohead, Beatles, Duke Ellington, Bob Dylan, Beach Boys e Otis Redding. Também havia Sófocles, Franz Kafka, Edgar Allan Poe, Platão e Truffaut.

Sem a revisão, essa lista poderia continuar parecendo apenas um inventário cultural. O que vejo agora é o caminho aberto entre as referências. A Sonata em Ré Maior D. 850, de Schubert, reapareceu numa nota sobre imperfeição. A fuga de Kafka Tamura aproximou-se de Antoine Doinel. Ao assistir aos filmes de Truffaut, relacionei a idade dos personagens, a idade da minha mãe e a figura de um professor da adolescência.

Foi assim que comecei a entender uma forma prática de influência. Um livro não entrega somente temas e recursos para copiar. Ele reorganiza minha atenção. Certas músicas, filmes e lembranças ganham passagem porque uma leitura anterior abriu a porta.

O conto On Seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning reforçou outra percepção. Uma situação pequena pode conter uma história interna muito maior. Um encontro que não acontece carrega uma narrativa imaginada sobre duas pessoas, separação, memória e reconhecimento. Depois de ler e ouvir o conto, passei a prestar mais atenção ao que uma cena cotidiana pode conter mesmo quando seus personagens não realizam aquela possibilidade.

O ritmo que a imitação não reproduz

Entre as anotações sobre tradução, uma palavra se repete: ritmo. Traduzir não seria apenas substituir unidades de uma língua por unidades de outra, mas perceber a pulsação do texto e reconstruí-la. Essa ideia acabou oferecendo um critério para reler minha própria prosa.

Nos dois rascunhos, ficou mais fácil distinguir atmosfera de ornamentação. Um corvo, uma floresta e uma frase enigmática produzem sinais reconhecíveis de Murakami. Eles não reproduzem o ritmo que torna esses elementos necessários. Já uma sequência aparentemente irregular — corte do papel, sonho, café, filme, memória escolar — pode encontrar um ritmo se cada passagem preparar a próxima e se a voz sustentar o movimento.

Ainda preciso trabalhar essa continuidade. O rascunho acumula material mais depressa do que decide o que permanece. O que extraio da leitura não é “escreva de modo estranho”, mas uma atenção maior à relação entre as partes. O ritmo me ajuda a perguntar quando desenvolver uma associação, quando interrompê-la e quando uma imagem está ali apenas porque lembra outro escritor.

Ainda estou descobrindo para quem escrevo

No fim dessa revisão, encontrei duas notas muito curtas. A primeira diz que importam os bons leitores, não os prêmios nem as pessoas que não leem. A segunda pergunta: para quem eu escrevo?

Eu ainda não tenho uma resposta. Quando coloco as duas frases juntas, porém, elas deslocam minha preocupação com uma aprovação genérica. Um bom leitor não precisa gostar de tudo; precisa encontrar no texto atenção suficiente para levá-lo a sério. Isso aumenta, e não reduz, minha responsabilidade com a escrita.

Hoje consigo nomear com mais clareza o efeito de Murakami sobre mim. Passei a ler com mais abertura para referências laterais, a aceitar melhor a lentidão da ficção, a tratar corpo e rotina como parte do trabalho, a desconfiar de que arquivar seja o mesmo que elaborar e a não considerar imitação uma falha que precisa ser escondida.

O próximo passo continua nos rascunhos. Quero retirar deles os sinais emprestados que apenas anunciam uma influência e preservar o que essa leitura me ajudou a enxergar: o som seco do papel, duas guitarras quebradas num sonho, uma sessão de Truffaut às 2h40 e um professor que ensinava a usar uma régua enquanto o Brasil discutia a volta da monarquia.

Esse material ainda não é uma obra. Mas, depois de revisar o caminho que me trouxe até ele, já consigo reconhecê-lo como matéria minha.

Referências

  • MURAKAMI, Haruki. Novelist as a Vocation. Tradução de Philip Gabriel e Ted Goossen. Knopf, 2022. Publicado originalmente em japonês em 2015. Edição e apresentação da Penguin Random House.
  • MURAKAMI, Haruki. Kafka on the Shore. Tradução de Philip Gabriel. Vintage,
    1. Edição e apresentação da Penguin Random House.
  • MURAKAMI, Haruki. “On Seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning”. In: The Elephant Vanishes.
  • Anotações e rascunhos pessoais produzidos entre janeiro e setembro de 2026.