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Peter Drucker e IA: inovação começa depois da demonstração
Uma demonstração de IA mostra uma possibilidade. Inovação exige escolher um problema, encaixar a tecnologia no processo e observar um resultado que importe.
No texto anterior desta sequência, fiquei com uma pergunta: a IA generativa é apenas mais um episódio de destruição criativa ou há algo nela que torna a explicação de Schumpeter insuficiente?
Schumpeter ajuda a olhar a mudança de fora. Um texto sobre Peter Drucker e os fundamentos da inovação me levou para dentro da organização: o que alguém precisa fazer para que uma possibilidade técnica produza um resultado útil?
Essa mudança de perspectiva é importante para IA porque uma demonstração impressionante pode ser construída sem que exista uma inovação.
O que encontrei em Drucker
O texto que li é uma síntese de ideias reunidas em The Essential Drucker, não uma pesquisa sobre IA. Ele apresenta inovação como trabalho sistemático: procurar oportunidades, observar sucessos e fracassos inesperados, identificar necessidades de processo e acompanhar mudanças em mercados, comportamentos e conhecimento.
Também destaca simplicidade e foco. Uma inovação deveria começar pequena, resolver uma necessidade específica e permitir ajustes. E precisa ser adotável no presente. Um possível impacto daqui a dez anos não resolve o problema de uma ideia que ninguém consegue usar agora.
Esse resumo não prova que um projeto de IA terá sucesso ao seguir essas orientações. O que ele oferece é um critério melhor para avaliar o projeto do que o grau de surpresa produzido pela primeira demonstração.
A demonstração é o começo do teste
Hoje é relativamente fácil mostrar um modelo resumindo documentos, gerando código ou respondendo a perguntas. O trabalho difícil começa quando tento responder:
- qual problema específico isso resolve;
- quem precisa mudar de comportamento para usar a solução;
- em qual processo ela entra;
- qual resultado permite decidir se vale continuar;
- quais erros, custos e riscos tornam outra abordagem preferível.
Já encontrei essa distância ao usar IA para gerar Architecture as Code. Produzir o primeiro diagrama era apenas o começo: o resultado só se aproximava de uma capacidade operacional quando havia fonte de verdade, regras verificáveis, observabilidade e alguém responsável pela decisão.
Essas perguntas separam duas atividades que costumam aparecer juntas.
Experimentar uma tecnologia serve para descobrir o que ela consegue fazer e onde falha.
Inovar com a tecnologia exige transformar o que foi aprendido em uma mudança adotável, vinculada a um problema e a um resultado.
Uma atividade não é inferior à outra. O problema aparece quando chamamos o experimento de inovação antes de testar a adoção e o efeito no processo real.
O risco de continuar defendendo o que funcionava
A síntese de Drucker também lembra que inovar envolve risco, mas preservar o que funcionava ontem não é uma posição sem risco. Isso não justifica automatizar qualquer processo apenas porque a tecnologia existe. Muda a comparação: a decisão precisa considerar tanto o custo de experimentar quanto o custo de não responder a uma oportunidade concreta.
Eu começaria pequeno: um problema delimitado, pessoas capazes de avaliar o resultado e uma condição explícita para interromper ou ampliar o teste. A recomendação vale quando é possível observar o trabalho real. Se o erro tiver alto impacto ou a avaliação for ambígua, o experimento precisa de mais controle, não de mais entusiasmo.
A pergunta que levo daqui é esta:
Quais problemas estamos resolvendo com IA e quais ainda são demonstrações interessantes procurando um problema?
No último texto da sequência, aplico essa distinção a outra provocação: se software fica mais barato, onde uma empresa ainda consegue sustentar valor?
Referência
- Chuck Frey, “Peter Drucker on the essentials of innovation”, InnovationManagement.se, 23 de março de 2009.