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Metade da receita para ser a cara local de uma equipe desconhecida
Recebi a proposta de representar uma equipe estrangeira diante dos clientes enquanto outras pessoas fariam o trabalho técnico. O principal risco não estava no código, mas no uso da minha identidade e reputação.
Em agosto de 2026, comecei a receber e-mails com uma proposta curiosa.
O texto mudava um pouco, mas a ideia permanecia: um desenvolvedor ou uma pequena equipe de outro país dizia ter dificuldade para fechar contratos porque os clientes desconfiavam de prestadores fora do mercado local.
A solução seria me colocar na frente da operação.
Eles fariam o trabalho técnico, eu apareceria diante dos clientes e a receita seria dividida igualmente.
No e-mail mais recente, o remetente dizia estar no Japão e escreveu:
“you’d be the face clients trust while my team does the actual engineering.”
Eu seria o rosto em quem o cliente confiaria enquanto a equipe faria a engenharia. A mensagem ainda acrescentava:
“there’s nothing hands-on for you.”
Metade da receita e praticamente nenhum trabalho. Era uma proporção boa demais para não perguntar qual ativo estava realmente sendo negociado.
O remetente não queria meu trabalho técnico
O remetente dizia ter encontrado meu perfil no GitHub. Isso, isoladamente, não tem nada de estranho: meu trabalho é público e alguém pode chegar até mim por ali.
O problema estava no conjunto apresentado pela mensagem:
- nenhuma empresa claramente identificada;
- nenhum site ou portfólio verificável;
- nenhum cliente ou projeto concreto;
- nenhuma explicação sobre contratos, responsabilidades, impostos, propriedade intelectual ou proteção de dados;
- uma conversa que deveria continuar pelo Telegram;
- uma promessa de 50% da receita por um papel descrito como pouco operacional.
Segundo o próprio e-mail, a equipe já tinha quem desenvolvesse. Minha interpretação foi que o ativo procurado era outro: minha identidade, minha localização e a confiança profissional associada ao meu nome.
A proposta não basta para provar um golpe
Não investiguei a identidade do remetente, a infraestrutura usada no contato ou a existência da equipe. Este relato registra por que recusei a proposta como ela foi apresentada; não é uma análise forense nem uma acusação contra uma pessoa identificada.
Pode existir uma equipe real tentando encontrar um parceiro comercial no Brasil. Existe, porém, uma diferença material entre estas propostas:
Temos uma empresa no Japão e queremos um representante comercial no Brasil.
e:
Você aparece como a pessoa em quem o cliente confia enquanto nós fazemos o trabalho.
Na primeira, a relação pode ser apresentada ao cliente de forma transparente. Na segunda, surge uma pergunta que a mensagem não respondeu: o cliente saberia quem realmente prestaria o serviço?
Se soubesse, ainda seria necessário definir responsabilidades, contratos, acessos e tratamento de dados. Se não soubesse, eu estaria emprestando meu nome para produzir confiança a partir de uma informação incompleta.
Minha preocupação deixaria de ser apenas perder dinheiro. A pessoa na frente do cliente também poderia se tornar o contato associado a entregas, acesso a sistemas, propriedade intelectual e problemas operacionais que não controlou.
A reputação era o ativo
O detalhe mais revelador não foi o Telegram nem o inglês genérico. Foi a frase:
“you’d be the face clients trust.”
Ela dizia o que a proposta valorizava. Não era meu código, minha arquitetura ou meu trabalho de engenharia. Era a confiança associada ao meu nome.
Essa confiança levou décadas para ser construída. Não encontrei na proposta informação suficiente para colocá-la a serviço de pessoas desconhecidas.
A regra que adotei
Propostas internacionais são normais. Equipes distribuídas também. O país onde o desenvolvimento acontece não é, por si só, um problema.
Minha regra passou a ser outra: se minha principal função numa operação for parecer ser algo que a operação não é, eu fico fora.
Eu observaria com cuidado uma combinação como esta:
- contato não solicitado;
- identidade ou empresa difícil de verificar;
- pagamento desproporcional ao trabalho descrito;
- migração rápida da conversa para um canal sem contexto comercial;
- ausência de contrato, cliente e responsabilidades definidas;
- uso da identidade, localização ou reputação de quem recebe a proposta.
Nesse caso, não respondi. Marquei a mensagem como spam e segui o dia.
Talvez eu tenha recusado a oportunidade de receber metade da receita de vários projetos sem fazer quase nada. Prefiro correr esse risco a descobrir tarde demais que o produto era a confiança vinculada ao meu nome.