Nota · Música · Off topic

Música, repertório e o tal do “Ego Off”

Hoje fui a um workshop com Ivan Castro na bateria, Daniel D’Alcântara no trompete, Milton Pellegrini no baixo e Michel Limma no piano.

A proposta original, segundo Ivan, seria um workshop de bateria. Aquela coisa de tocar com playback, demonstrar algumas ideias e conversar com o público.

Mas, como ele mesmo disse, não era bobo.

Levou a banda.

Ainda bem.

Entre músicas, perguntas e algumas boas histórias de estrada, a conversa acabou indo muito além de bateria. Passou por improvisação, repertório, formação musical, mercado, identidade e pelo trabalho de acompanhar artistas como Ed Motta.

E uma expressão usada por Michel ficou comigo:

Ego Off.

Nem toda hora é hora de criar

A conversa começou a partir de uma pergunta sobre repetição.

O que fazer quando uma música pede que você toque praticamente a mesma linha do começo ao fim?

Para um músico criativo, isso pode ser mais difícil do que parece.

Você toca uma vez.

Depois outra.

Na terceira já aparece aquela vontade de colocar uma nota diferente, mudar uma frase, fazer alguma coisa nova.

Milton resumiu:

liga o Ego Off e vai.

Parece uma brincadeira, mas existe bastante coisa aí.

Às vezes o trabalho não é mostrar tudo o que você sabe fazer.

É tocar exatamente aquilo que a música precisa.

Milton contou que há trabalhos em que recebe uma orientação bastante clara: a linha é um loop, não modifica.

Em outros existe espaço para se movimentar.

E há aqueles em que a liberdade é parte fundamental da música.

Saber tocar é também saber distinguir essas situações.

Mercado e cenário

Daniel colocou outra ideia interessante na conversa.

Ele separa mercado de cenário.

No mercado, existe um trabalho a ser feito. Alguém contratou você para desempenhar uma função e existe uma expectativa sobre aquilo que precisa ser entregue.

Você precisa ser eficiente.

Tocar o arranjo.

Entender o que aquele trabalho pede.

Já o cenário é onde sua identidade artística começa a aparecer.

É onde alguém reconhece:

Daniel improvisa assim.

Ivan toca desse jeito.

Milton tem aquela maneira de construir o groove.

Michel tem determinada linguagem harmônica.

Uma coisa não precisa eliminar a outra.

Na verdade, talvez parte da maturidade esteja justamente em conseguir circular entre as duas.

Cola no disco

Boa parte das histórias sobre tocar com Ed Motta voltou para uma expressão:

cola no disco.

Antes de procurar alguma coisa nova, aprenda o que já está ali.

Michel contou que esse é um dos princípios do trabalho com a banda.

Ouvir a gravação.

Aprender as linhas.

Entender os detalhes.

Fazer o arranjo soar.

Em determinado momento do workshop, ele pediu uma demonstração.

A banda começou a tocar a base de uma música do Ed. Depois pediu para Milton mudar a linha de baixo.

A harmonia continuava ali.

O andamento também.

Mas imediatamente começava a parecer outra música.

Foi uma demonstração simples de algo que às vezes esquecemos: determinadas escolhas não são apenas detalhes de execução.

Elas são parte da composição.

Se o músico resolve ser criativo justamente ali, pode acabar desmontando aquilo que deveria estar ajudando a construir.

Mas então onde entra a improvisação?

É aí que a conversa ficou mais interessante.

Porque Ed Motta, ao mesmo tempo em que exige atenção aos detalhes dos discos, também abre espaços para a banda improvisar.

Às vezes inclusive cria esses espaços durante o próprio show.

Ivan contou de uma ocasião em que recebeu, sem ensaio, uma indicação para solar bateria ali mesmo.

Vai.

Essa aparente contradição talvez seja uma das coisas mais interessantes desse tipo de música.

Você precisa saber exatamente o que não deve mudar para conseguir aproveitar aquilo que pode mudar.

Ivan comentou que alguém poderia ouvir o grupo tocando música instrumental naquele workshop e pensar:

“os caras estão tocando livres.”

Não exatamente.

Daniel conhece a melodia e a estrutura.

Milton conhece as linhas e os grooves.

Michel conhece a harmonia.

Ivan conhece as referências rítmicas.

Todos ouviram as gravações.

Todos conhecem o assunto da conversa.

A liberdade aparece depois disso.

Escutar também é estudar

Outra coisa que apareceu nas histórias dos quatro foi o disco como instrumento de formação.

Não apenas ouvir música.

Estudar ouvindo música.

Ler a ficha técnica.

Descobrir quem é o baixista.

Procurar outro disco em que ele tocou.

Ouvir aquele disco.

Encontrar outro músico.

Seguir o caminho.

Milton contou uma prática que achei particularmente interessante.

Ele ouvia um disco e, quando alguma coisa chamava sua atenção — um solo, uma passagem de bateria, uma levada — anotava no celular o minuto em que aquilo acontecia.

Depois voltava especificamente àquele trecho.

O disco deixava de ser apenas algo para ouvir e virava uma espécie de mapa.

Acho uma ótima definição prática de escuta ativa.

Não é apenas perceber que gostou.

É perguntar:

o que aconteceu aqui para eu ter gostado tanto disso?

E tentar descobrir.

Seguindo as fichas técnicas

Talvez por isso tenha aparecido tanta gente durante a conversa.

Ivan falou de Bernard Purdie, Jeff Porcaro, Dennis Chambers, Dave Weckl, Edison Machado, Milton Banana, Celso de Almeida e Edu Ribeiro.

Mas destacou Tony Williams como uma grande virada de chave.

Ao ouvi-lo, começou a perceber que várias coisas que admirava posteriormente em outros bateristas já estavam ali.

Daniel falou de Claudio Roditi, Freddie Hubbard, Miles Davis e, principalmente, da própria família de músicos como primeira escola.

Milton passou por Arthur Maia, Nico Assumpção, Anthony Jackson, Paul Jackson, Jaco Pastorius, Weather Report, Chick Corea, Herbie Hancock e muitos outros.

Michel citou Lennie Tristano, Andrew Hill, Herbie Hancock e Keith Jarrett.

Mas talvez a referência mais importante na história dele tenha sido Bira Marques.

Não apenas pelo que tocava.

Pelo que disse.

Não jogue fora de onde você veio

Michel contou que, quando começou a entrar mais profundamente na música instrumental, Bira Marques chamou atenção para algo importante.

Ele deveria conhecer outras referências, mas não deveria tentar simplesmente copiá-las.

E, principalmente, não deveria perder aquilo que já trazia da igreja.

Gostei muito disso.

Existe uma tentação quando começamos a estudar alguma coisa mais profundamente de considerar o conhecimento anterior quase um defeito.

Agora estou estudando jazz, então preciso deixar o rock para trás.

Agora estou estudando harmonia, então aquela música simples que eu gostava antes perdeu valor.

Agora conheço músicos sofisticados, então minhas referências anteriores eram ruins.

Talvez seja justamente o contrário.

Quem veio da igreja traz alguma coisa.

Quem veio do rock traz outra.

Quem tocou em banda de baile traz outra.

Quem passou pelo samba, pelo funk, pelo gospel, pelo pop traz outras.

O estudo não precisa apagar essas camadas.

Pode acrescentar outras.

Talvez seja justamente esse acúmulo que, com o tempo, comece a produzir aquilo que chamamos de identidade.

Improvisamos o tempo inteiro

No final, Daniel levou a conversa sobre improvisação para fora da música.

A gente improvisa todos os dias.

Sabíamos que haveria um workshop.

Sabíamos mais ou menos quem estaria ali.

Sabíamos que haveria música e conversa.

Mas ninguém sabia exatamente quais perguntas seriam feitas, quais histórias apareceriam ou para onde cada assunto iria.

Existia uma estrutura.

O resto aconteceu na interação.

Talvez improvisação musical não esteja tão distante disso.

Não é simplesmente fazer qualquer coisa.

É conhecer suficientemente o contexto para conseguir escutar o que está acontecendo e responder.

Voltei do workshop pensando que boa parte da conversa poderia ser reduzida a três coisas:

estrutura suficiente para saber onde estamos;

escuta suficiente para perceber o que está acontecendo;

liberdade suficiente para responder.

E, quando a música pedir apenas aquela linha de baixo do começo ao fim?

Ego Off.