Música

O que um exercício de tríades me fez entender sobre enclosure

Se quiser usar este texto como ponto de partida para ouvir mais, peça um roteiro de escuta ao ChatGPT ou ao Claude .

Uma folha enviada pelo meu professor me levou das aproximações cromáticas à pergunta que passou a orientar meu estudo: em qual nota quero chegar?

Meu professor, André Machado, me enviou uma folha chamada “Enclosures em tríades”. Era um exercício em partitura e tablatura, daqueles que primeiro parecem apenas uma sequência de notas para executar no instrumento.

Mas a palavra enclosure ficou na minha cabeça.

Eu já vinha estudando tríades, aproximações cromáticas e um pouco de walking bass. Resolvi então puxar o fio para entender o que estava praticando naquela folha e, principalmente, o que isso poderia mudar na maneira como penso uma linha de baixo.

A nota do acorde era o destino

O que entendi primeiro foi relativamente simples: escolho uma nota-alvo e, antes de chegar nela, toco notas que a cercam.

Se o alvo é E, uma possibilidade é:

1
F → D# → E

O F vem de cima, o D# vem de baixo e o movimento resolve no E.

Sobre a tríade de C maior:

1
2
C  E  G
1  3  5

posso cercar cada nota assim:

1
2
3
Db → B  → C
F  → D# → E
Ab → F# → G

C, E e G continuam sendo as notas que estruturam o acorde. As demais criam o movimento até elas.

Foi aí que o exercício começou a fazer mais sentido para mim. Enclosure não é apenas acrescentar cromatismo à linha. Existe um destino.

A nota do acorde é o destino. O enclosure constrói a chegada.

Essa ideia também me ajudou a distinguir o recurso de uma aproximação cromática simples. Posso chegar ao C apenas por cima:

1
Db → C

No enclosure, a aproximação passa pelos dois lados antes de resolver:

1
Db → B → C

Passei a entendê-lo como uma das maneiras possíveis de construir uma aproximação. A página do curso Simple Steps to Walking Bass, de Mark Smith, coloca no mesmo percurso as aproximações diatônicas, cromáticas e os enclosures. Isso situou a folha recebida do professor dentro de um vocabulário maior de construção de linhas.

Em qual nota quero chegar?

No baixo, a ideia ficou mais interessante quando deixei de pensar somente no acorde que está acontecendo e comecei a observar a nota em que quero chegar.

Uma linha formada apenas por notas do acorde poderia ser:

1
C → E → G → C

Posso, porém, decidir que o próximo alvo é G e preparar sua chegada:

1
E → Ab → F# → G

Também posso usar o final de um compasso para conduzir à primeira nota do seguinte. Essa possibilidade me chamou mais atenção do que o desenho cromático isolado.

Na análise de “How High the Moon”, de Ross Sandlin, um enclosure iniciado no segundo compasso prepara o B♭ do terceiro. Mais adiante, outro antecipa o A do compasso seguinte. Nesses exemplos, o recurso participa do voice leading: a linha já aponta para onde a harmonia vai.

Passei a enxergar o movimento desta forma:

1
2
3
4
5
6
7
8
9
acorde atual
     ↓
nota estrutural
     ↓
movimento
     ↓
enclosure
     ↓
nota-alvo do próximo ponto da harmonia

Os métodos Walking Bass Line Construction, de Bob Sinicrope, também aproximam approach notes, enclosures, passing tones e forward motion. O que estou tentando aprender, portanto, não é um ornamento que existe sozinho. É uma maneira de fazer a linha caminhar para algum lugar.

Essa mudança parece pequena, mas alterou a pergunta que faço durante o estudo.

Em vez de:

Que nota posso tocar agora?

comecei a perguntar:

Em qual nota quero chegar?

Se decido cair na terça do próximo acorde, as notas anteriores deixam de ser uma coleção de opções e passam a preparar aquele ponto. O enclosure cria uma pequena tensão antes da resolução.

A geografia do contrabaixo

No papel, posso resumir o movimento como nota acima, nota abaixo e alvo. No braço do contrabaixo, ainda preciso escolher corda, posição, dedos e o caminho até o que vem depois.

Dois enclosures harmonicamente equivalentes podem exigir movimentos bem diferentes. Uma digitação confortável em andamento lento talvez deixe de ser uma boa escolha em velocidades maiores ou quando a linha exige uma mudança de posição logo depois.

Ainda estou começando a levar essas possibilidades para o instrumento. Por isso, repetir os movimentos sobre as tríades deixou de me parecer apenas um exercício de teoria. A repetição começa a criar caminhos físicos no braço.

Encontrei um raciocínio parecido numa discussão do Contrabaixo BR sobre aproximações cromáticas no walking bass. A sugestão ali é reconhecer primeiro as notas que descrevem os acordes, identificar depois as aproximações e somente então tocar a linha.

Gostei dessa ordem porque ela evita um atalho que posso tomar facilmente: memorizar a tablatura e deixar de enxergar a harmonia.

Se memorizo apenas isto:

1
2
3
casa 10
casa 8
casa 7

aprendi um exercício. Se consigo reconhecer algo como:

1
2
3
4
5
6
7
3 do acorde
↓
aproximação
↓
aproximação
↓
5 do acorde seguinte

talvez esteja começando a formar um vocabulário que posso tentar usar em outra música.

Voltando à folha

Depois dessa pesquisa, voltei ao exercício “Enclosures em tríades” com outra intenção. Minha primeira tendência seria tocar a folha até os dedos memorizarem os movimentos. Agora quero procurar 1, 3 e 5, reconhecer quais notas são os alvos e observar de onde estou chegando.

Depois, quero transportar algumas dessas ideias para outras tríades e testar os movimentos entre dois acordes. Ainda preciso descobrir quais digitações funcionam melhor e quanto desse vocabulário consigo usar sem parecer que estou apenas encaixando uma fórmula na linha.

A parte mais interessante desse fio não foi encontrar um novo desenho cromático. Foi chegar a uma pergunta mais musical para orientar o estudo:

Onde quero chegar — e como posso fazer a linha apontar para lá?

Por enquanto, essa pergunta me parece mais útil do que procurar a próxima nota.

Referências