Assisti recentemente a um vídeo da Fender sobre os 75 anos do Precision Bass e aconteceu uma coisa que costuma acontecer comigo diante desse tipo de conteúdo: o vídeo terminou, mas a pesquisa estava apenas começando.
Visto de fora, o P-Bass atual parece simples. Quatro cordas, um captador dividido, volume e tone. Pouca coisa para mexer. Mas basta procurar quem tocou esse baixo e em quais discos esses músicos aparecem para a história ficar muito maior.
O Precision Bass foi lançado em 1951. A configuração também mudou ao longo do tempo — o captador dividido que hoje associo ao modelo não estava naquele primeiro instrumento —, mas o nome atravessou estilos e gerações. Para mim, ele começou a parecer uma espécie de idioma comum entre baixistas que falam de maneiras completamente diferentes.
Do vídeo de abertura fui para os episódios da série Lowdown on the Low End. No primeiro, Lee Sklar, Freddie Washington e Bob Glaub conversam com Steve Ferrone. No segundo, aparecem Geezer Butler e Nate Mendel. James Jamerson atravessa essa história como uma referência anterior a todos eles.
Foi aí que comecei a anotar nomes, discos e músicas.
Não queria descobrir “quem é o melhor” nem montar uma lista definitiva de baixistas. Queria algo mais útil para o meu estudo: ouvir o que cinco músicos fizeram a partir de uma mesma família de instrumento e prestar atenção em aspectos diferentes da maneira de tocar de cada um.
O resultado foi uma playlist de 20 músicas.
James Jamerson: quando o baixo deixa de ser apenas a fundamental
É difícil começar uma conversa sobre Precision Bass sem chegar a James Jamerson.
Como integrante dos Funk Brothers, a banda de estúdio da Motown, ele gravou com Marvin Gaye, The Supremes, Four Tops, The Temptations, Stevie Wonder e outros artistas da gravadora. O instrumento mais associado a essa história é seu Precision Bass de 1962.
Na recriação apresentada pela Fender, o baixo recebe cordas flatwound, mute de espuma e um captador construído para o modelo dedicado a Jamerson. Esses detalhes ajudam a situar o som, mas o que mais me interessa acontece quando ele começa a tocar.
Passei a procurar linhas que não ficam apenas marcando as fundamentais. O baixo caminha pelos acordes, usa cromatismos, aproximações, oitavas e cordas soltas. Há muito movimento, mas, na minha escuta, ele não parece disputar espaço com a música.
É quase como se houvesse outra melodia acontecendo lá embaixo.
Um ótimo ponto de entrada é What’s Going On, de Marvin Gaye. Jamerson toca na faixa-título e em “What’s Happening Brother”; Bob Babbitt aparece em outras faixas do álbum.
Para minha lista, separei:
- Marvin Gaye — “What’s Going On”;
- Marvin Gaye — “What’s Happening Brother”;
- Marvin Gaye — “I Heard It Through the Grapevine”;
- Four Tops — “Bernadette”.
Os discos que coloquei ao lado do nome de Jamerson foram What’s Going On, de Marvin Gaye; In the Groove, também de Marvin Gaye; Reach Out, dos Four Tops; e Where Did Our Love Go, das Supremes.
Minha anotação de estudo aqui é ouvir como o baixo pode ser melódico sem deixar de ser acompanhamento.
Lee Sklar: tocar menos não significa fazer menos
Depois cheguei a Leland “Lee” Sklar.
Sklar é um daqueles músicos que eu provavelmente já tinha ouvido muitas vezes sem saber o nome. Sua discografia passa por James Taylor, Jackson Browne, Linda Ronstadt e Phil Collins, entre muitos outros artistas.
A relação dele com o Precision também é curiosa. O instrumento principal foi sendo modificado durante décadas até se tornar praticamente um P-Bass particular. No modelo que a Fender produziu a partir dessa configuração, há dois captadores P ativos, corpo de Precision e um braço modificado para dimensões próximas às de um Jazz Bass, com trastes pequenos.
Se Jamerson me chama atenção pelo movimento, Sklar me interessa quase pelo contrário.
Duração das notas. Espaço. Sustentação. Escolha de registro.
É aquele tipo de baixo que parece simples até tentarmos tocar exatamente como está no disco.
Minha seleção ficou assim:
- James Taylor — “Long Ago and Far Away”;
- James Taylor — “You’ve Got a Friend”;
- Jackson Browne — “Running on Empty”;
- Phil Collins — “Another Day in Paradise”.
Os discos que entraram na pesquisa foram Mud Slide Slim and the Blue Horizon, de James Taylor; Running on Empty, de Jackson Browne; e …But Seriously, de Phil Collins.
A anotação desta parte virou: escutar principalmente o tamanho das notas e os espaços entre elas.
Freddie Washington: o P-Bass também pode dançar
A pesquisa mudou de direção quando cheguei a “Ready” Freddie Washington.
Se Jamerson me levou à Motown e Sklar à escola dos grandes músicos de sessão de Los Angeles, Freddie abriu a porta para funk, jazz-funk e R&B.
E aí apareceu uma música inevitável para mim: “Forget Me Nots”, de Patrice Rushen.
A linha foi tocada por Washington e é uma daquelas partes em que o baixo praticamente identifica a música sozinho. Ouço groove, síncope, semicolcheias, ghost notes e slap, mas não como uma demonstração de técnica separada da música.
Foi talvez o momento da pesquisa em que ficou mais evidente para mim que “som de P-Bass” não significa necessariamente aquele grave aveludado e comportado que às vezes associo ao instrumento. Ele também pode ter ataque e articulação suficientes para ocupar o centro do groove.
Separei:
- Patrice Rushen — “Forget Me Nots”;
- Patrice Rushen — “Hang It Up”;
- Patrice Rushen — “The Funk Won’t Let You Down”;
- Herbie Hancock — “Just Around the Corner”.
Os discos que anotei para continuar ouvindo foram Patrice, Pizzazz, Posh e Straight from the Heart, de Patrice Rushen, além de Mr. Hands, de Herbie Hancock.
Minha anotação aqui é prestar atenção no pocket antes de tentar reproduzir todas as notas.
Bob Glaub: o baixo que faz a música funcionar
Talvez Bob Glaub seja o nome menos conhecido desta lista fora do universo de músicos. Mas sua discografia passa por Jackson Browne, Warren Zevon, Stevie Nicks, Bob Dylan, John Lennon e Linda Ronstadt.
No primeiro episódio de Lowdown on the Low End, seu Precision de 1959 aparece como uma ferramenta de trabalho: um instrumento usado durante décadas, com cordas que ele conta não trocar há mais de 40 anos.
Encontrei aqui uma coisa de que gosto muito em baixistas de sessão: partes que não parecem construídas para chamar atenção para quem está tocando.
Elas fazem a música inteira funcionar melhor.
No mesmo episódio, Glaub conta uma história sobre “The Pretender”, de Jackson Browne. Ele diz ter gravado a faixa com um Precision de 1964, embora as primeiras prensagens do disco tenham atribuído o baixo a Lee Sklar.
Escolhi:
- Warren Zevon — “Mohammed’s Radio”;
- Warren Zevon — “Desperados Under the Eaves”;
- Jackson Browne — “The Pretender”;
- Stevie Nicks — “Edge of Seventeen”.
Entre os álbuns, ficaram Warren Zevon, The Pretender, Excitable Boy e Bella Donna.
Minha anotação talvez seja a mais simples de todas: tocar para a música.
Geezer Butler: e então o P-Bass fica pesado
No fim desta viagem aparece Geezer Butler.
É interessante perceber que o mesmo conceito de instrumento presente na Motown de Jamerson também ajudou, poucos anos depois, a construir a linguagem do Black Sabbath.
No episódio dedicado a ele e Nate Mendel, Butler conta que chegou ao P-Bass influenciado por Jack Bruce, do Cream, e descreve o Fender quase como uma extensão da própria mão.
Só que Geezer usa essa ferramenta de uma forma completamente diferente.
Aqui comecei a ouvir riffs, distorção, ataque e uma relação muito forte entre baixo, bateria e guitarra. O que mais me interessa é perceber que o baixo nem sempre está simplesmente dobrando Tony Iommi. Muitas vezes Geezer circula pelo riff, adicionando movimento e criando outra camada.
Para essa parte da playlist escolhi:
- Black Sabbath — “N.I.B.”;
- Black Sabbath — “War Pigs”;
- Black Sabbath — “Hand of Doom”;
- Black Sabbath — “Into the Void”.
Os três álbuns que ficaram como referência dessa fase foram Black Sabbath, Paranoid e Master of Reality.
Minha anotação é ouvir primeiro o riff da guitarra e depois tentar separar mentalmente o que o baixo realmente está fazendo.
Vinte músicas depois
No fim, o vídeo virou um pequeno mapa para as minhas próximas escutas:
| Baixista | O que estou tentando ouvir |
|---|---|
| James Jamerson | movimento, cromatismos e construção melódica |
| Lee Sklar | espaço, duração das notas e sustentação |
| Freddie Washington | pocket, síncope e articulação |
| Bob Glaub | acompanhamento e economia |
| Geezer Butler | riffs, ataque e independência em relação à guitarra |
Essa não é uma lista de 20 sessões nas quais consegui documentar o instrumento exato usado em cada gravação. É uma trilha de escuta construída a partir de cinco baixistas associados ao Precision Bass. Em alguns casos, as fontes permitem chegar ao baixo usado; em outros, minha pesquisa chegou até o músico e o disco.
Essa distinção importa porque músicos de sessão usam instrumentos diferentes e os créditos de um álbum nem sempre registram o equipamento de cada faixa.
Mesmo com esse limite, há algo de que gostei na pesquisa. Falamos muito sobre instrumentos procurando diferenças de madeira, captadores, cordas, amplificadores e regulagens. Tudo isso existe e participa do resultado. Mas seguir cinco baixistas associados ao Precision mostra outra coisa: o instrumento pode continuar reconhecível enquanto a linguagem muda completamente.
Jamerson não soa como Sklar. Sklar não toca como Freddie Washington. Bob Glaub ocupa outro espaço. Geezer Butler parece estar em outro universo.
E, ainda assim, existe alguma coisa daquele P-Bass atravessando a pesquisa.
A playlist
A lista final ficou assim:
- Marvin Gaye — “What’s Going On”;
- Marvin Gaye — “What’s Happening Brother”;
- Marvin Gaye — “I Heard It Through the Grapevine”;
- Four Tops — “Bernadette”;
- James Taylor — “Long Ago and Far Away”;
- James Taylor — “You’ve Got a Friend”;
- Jackson Browne — “Running on Empty”;
- Phil Collins — “Another Day in Paradise”;
- Patrice Rushen — “Forget Me Nots”;
- Patrice Rushen — “Hang It Up”;
- Patrice Rushen — “The Funk Won’t Let You Down”;
- Herbie Hancock — “Just Around the Corner”;
- Warren Zevon — “Mohammed’s Radio”;
- Warren Zevon — “Desperados Under the Eaves”;
- Jackson Browne — “The Pretender”;
- Stevie Nicks — “Edge of Seventeen”;
- Black Sabbath — “N.I.B.”;
- Black Sabbath — “War Pigs”;
- Black Sabbath — “Hand of Doom”;
- Black Sabbath — “Into the Void”.
Não montei essa lista como “as 20 melhores linhas de P-Bass”. É apenas o caminho que fiz depois de assistir ao vídeo: cinco baixistas, alguns discos e vinte músicas que agora quero ouvir — e, em alguns casos, tentar tocar — prestando muito mais atenção ao que acontece nas frequências mais baixas.
Às vezes estudar música começa exatamente assim: uma coisa aponta para outra, que aponta para um disco, que aponta para um músico, que aponta para mais vinte músicas.
E lá se foi a tarde.