Ouvi uma entrevista de Mateus Asato em que ele falava de Tori Kelly. Fui atrás e encontrei Hiding Place, o álbum que me conectou ao gospel dela.
Gosto muito do trabalho do Mateus. Como alguém que escuta, estuda e tenta tocar guitarra, acompanho o que ele faz e me interesso pelas músicas que aparecem pelo caminho. Dessa vez, uma conversa me levou a um disco.
Já aconteceu algo parecido quando uma gravação de Chihiro Yamanaka me levou a Carla Bley e a Sextet. Uma pessoa chama minha atenção para outra. Quando percebo, estou ouvindo um álbum que ainda não fazia parte do meu repertório.
O que reconheço no Mateus
Uma das coisas de que mais gosto no Mateus é tudo o que ele traz de Oficina G3, tanto na música quanto nas referências.
Quando acompanho um músico, também me interesso pelo que ele escuta e pelos nomes que menciona. Encontrar Oficina G3 nas referências do Mateus aumenta minha proximidade com o trabalho dele. Há o prazer de ouvir a guitarra e o de reconhecer algo que também faz parte da minha escuta.
Foi com esse interesse que ouvi o que ele tinha a contar sobre Tori e quis conhecer o trabalho dela.
Um disco para conhecer a Tori
Hiding Place foi lançado em 14 de setembro de 2018, em parceria com Kirk Franklin. Segundo a apresentação do álbum pela Universal Music, a colaboração começou com a ideia de fazer uma música e cresceu até se tornar um disco de oito faixas.

Participam Lecrae, The Hamiltones e Jonathan McReynolds. Em 2019, o trabalho recebeu o Grammy de Melhor Álbum Gospel, e “Never Alone”, com Kirk Franklin, venceu Melhor Performance/Canção Gospel.
A entrevista foi o caminho até o disco. Isso não significa que Mateus tenha tocado em Hiding Place: não consegui confirmar um crédito dele nessa gravação.
Never Alone e Psalm 42: ouvir a harmonia
“Never Alone” e “Psalm 42” foram meus pontos de atenção no álbum, especialmente para observar as progressões harmônicas e a composição. Além de conhecer a voz de Tori, comecei a me interessar por como os acordes se encadeiam e como cada música passa de uma parte para outra.
As cifras que tenho separado para estudo ajudam a acompanhar esse percurso. Em “Never Alone”, a ficha distingue verso, pré-refrão, refrão e ponte, além de indicar uma mudança de tom no final. Em “Psalm 42”, ela permite acompanhar os versos, a ponte e as retomadas do refrão. Uso essas divisões como apoio para voltar à gravação e ouvir o que muda entre as partes.
Quero observar como a melodia se relaciona com as trocas de acorde e como as repetições participam da composição. Ainda estou começando esse estudo; as cifras me dão um ponto de partida para escutar com mais atenção.
Voltar ao gospel por outra porta
No texto sobre o mixolídio e a música gospel, parti de uma pergunta sobre uma nota. A sétima menor me levou a aproximar sons do blues, do rock e do gospel, tentando ouvir melhor as diferenças entre eles.
Agora o ponto de partida foi um músico.
Oficina G3 e Tori Kelly entram nessa história por caminhos diferentes. Meu interesse pelo que Mateus carrega de Oficina G3 me aproxima dele; a fala dele sobre Tori me leva adiante. Não preciso procurar a mesma sonoridade nos dois para gostar dessa ligação.
Hiding Place fica como uma nova entrada para continuar ouvindo gospel. “Never Alone” e “Psalm 42” me dão dois lugares concretos para voltar, agora acompanhando também a harmonia e a construção das músicas.
Gosto quando acompanhar um guitarrista também produz isso: por alguns momentos, deixo de olhar para o instrumento dele e vou ouvir a cantora de quem ele está falando.