Música

A vassoura de Jimi Hendrix e Woodstock às nove da manhã

Se quiser usar este texto como ponto de partida para ouvir mais, peça um roteiro de escuta ao ChatGPT ou ao Claude .

A leitura da biografia de Charles R. Cross me deixou com duas cenas de Hendrix: a infância antes da primeira guitarra e um Woodstock bem diferente da multidão que costumo imaginar.

Hoje li Jimi Hendrix — Uma sala cheia de espelhos, de Charles R. Cross, e fiz algumas anotações sobre passagens que me chamaram bastante a atenção. Uma delas ficou longe dos palcos: o menino que fingia tocar guitarra numa vassoura. Anotei também que, no livro, o instrumento velho que veio depois é chamado de violão e tinha apenas uma corda. Foi essa insistência anterior à guitarra elétrica que me fez parar.

Capa da edição brasileira de Jimi Hendrix — Uma sala cheia de espelhos, de Charles R. Cross
Capa da edição brasileira publicada pela Seoman. Imagem: Mega Livros.

A biografia publicada no site oficial de Hendrix também conta a história da vassoura, atribuída à recordação de seu pai, Al. Mas chama o instrumento de uma corda de ukulele; no livro que li, ele é chamado de violão. Não sei de onde vem a divergência entre as fontes, então deixo a questão em aberto.

O mesmo relato oficial situa a primeira guitarra acústica comprada por seu pai em 1958 e a primeira elétrica no ano seguinte. A vassoura e o instrumento de uma corda pertencem, portanto, ao período anterior àquela guitarra que hoje parece inseparável de Hendrix.

Antes da guitarra, a atenção já estava lá

O que me interessa nessa cena não é transformá-la numa regra de estudo. Uma vassoura não substitui um instrumento, e a falta de equipamento não explica o músico que Hendrix se tornou. Nem consigo dizer, a partir desse episódio, como ou por quanto tempo ele praticava.

O detalhe que ficou comigo é menor: havia uma criança voltando ao gesto de tocar mesmo antes de ter uma guitarra nas mãos. A imagem do guitarrista pronto costuma esconder começos incompletos como esse. Essa é minha impressão da leitura, não uma explicação para o talento dele.

O público de Woodstock também era menor do que a imagem

Em outra nota feita no mesmo dia, voltei à apresentação de Hendrix em Woodstock. Quando penso no festival, é fácil juntar a multidão estimada de quase meio milhão de pessoas à imagem da guitarra branca de Hendrix. O Bethel Woods Center for the Arts, que preserva a história do local, registra outra escala para aquele momento: Hendrix começou a tocar por volta das 9h da manhã de segunda-feira, 18 de agosto de 1969. O festival havia recebido cerca de meio milhão de pessoas, mas aproximadamente 40 mil ainda estavam ali para vê-lo.

O site oficial de Hendrix disponibilizou A Second Look, um registro em vídeo da apresentação feito por Albert Goodman:

Ver vídeo de Hendrix em Woodstock — A Second Look

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Quarenta mil pessoas continuam sendo uma plateia imensa. O contraste está entre a apresentação real e a multidão total que, por associação, acabo colocando diante dele. O show também não foi apenas o trecho de “The Star-Spangled Banner” que costuma representar Woodstock: a programação registrada por Bethel Woods vai das 9h às 11h15.

Desenho em caneta azul sobre papel de caderno: um menino toca uma vassoura como guitarra; ao lado, Jimi Hendrix toca uma guitarra branca como canhoto em Woodstock
Desenho em caneta azul sobre papel de caderno: a vassoura na infância e Hendrix canhoto com a guitarra branca em Woodstock.

Não há uma linha reta a traçar da vassoura até aquele palco. Entre as duas cenas há anos de música que estas notas mal começam a mostrar. Ainda assim, elas ficaram lado a lado para mim depois da leitura: uma antes de Hendrix ter uma guitarra de verdade; outra quando já era o nome de encerramento, tocando para uma fração do público que passou pelo festival.

Nenhuma das duas diminui a música. Elas apenas me fazem desconfiar um pouco das imagens prontas com que eu contava sua história.