Na empresa, todos sabiam que Marcelo não terceirizava pensamento.
Ele dizia isso com alguma frequência.
Não como quem se gaba, exatamente. Era mais uma espécie de princípio.
— Ferramenta é ferramenta. Pensar é comigo.
A frase aparecia principalmente quando alguém mencionava inteligência artificial.
Marcelo não era contra.
Fazia questão de esclarecer.
Usava.
Testava.
Tinha assinatura de duas ferramentas e uma terceira paga pela empresa.
O problema, dizia, era deixar que elas pensassem por você.
Naquela terça-feira, chegou cedo para uma reunião importante.
Estacionou no terceiro subsolo.
O carro encontrou sozinho a vaga livre e desenhou na câmera quatro linhas amarelas indicando onde deveria entrar.
Marcelo girou o volante seguindo as linhas.
Depois apertou o botão do elevador.
Não pensou qual cabo sustentava a cabine.
Não calculou a carga máxima.
Não conferiu o projeto estrutural do prédio.
Entrou.
No décimo primeiro andar, colocou a mochila sobre a mesa e abriu o notebook.
O calendário já havia organizado o dia.
A primeira reunião começaria em oito minutos.
O aplicativo avisou que havia trânsito no caminho de dois participantes.
Outro sistema preparou a transcrição automática da chamada.
Um terceiro apresentaria os gráficos.
Marcelo pegou café.
A máquina havia calculado a temperatura, a pressão e o tempo de extração.
Ele só escolhera espresso.
Às nove em ponto, começou a reunião.
O assunto era complicado.
Uma equipe precisava redesenhar parte de um sistema antigo.
Havia regras contraditórias, nomes usados de formas diferentes por departamentos diferentes e decisões tomadas anos antes que ninguém lembrava exatamente por quê.
— Precisamos entender o domínio antes de desenhar a solução — disse Marcelo.
Todos concordaram.
Passaram a manhã conversando.
Escreveram termos num quadro.
Apagaram.
Reescreveram.
Uma palavra significava uma coisa para o financeiro e outra para operações.
Alguém percebeu que duas etapas aparentemente diferentes eram, na prática, a mesma coisa.
Outra pessoa lembrou de uma exceção importante.
Ao meio-dia, o quadro parecia pior do que no começo.
Marcelo gostava daquele momento.
Era quando o problema finalmente começava a aparecer.
Depois do almoço, alguém sugeriu usar um modelo de linguagem para organizar as notas.
Marcelo hesitou.
— Organizar tudo bem.
Fez uma pausa.
— Desde que ele não pense por nós.
Colaram a transcrição.
O modelo agrupou conceitos.
Identificou termos ambíguos.
Sugeriu perguntas que ainda não tinham sido feitas.
Uma delas fez a equipe parar.
— Espera — disse alguém. — Se isso for verdade, nosso modelo inteiro está errado.
Voltaram ao quadro.
Discutiram por quarenta minutos.
O modelo estava errado em duas coisas.
Certo em outra.
A terceira ninguém sabia.
Ligaram para uma pessoa de outro departamento.
Ela explicou.
Mudaram o desenho novamente.
No fim da tarde, Marcelo olhou para o quadro.
Não sabia dizer exatamente qual parte daquilo havia vindo de quem.
Uma pergunta fora sugerida pela máquina.
A resposta viera de uma analista.
O desenho tinha sido feito por ele.
Mas a primeira versão daquele desenho surgira de uma discussão iniciada por outra pessoa, a partir de uma inconsistência encontrada pelo modelo numa transcrição produzida automaticamente por outro sistema.
Marcelo fechou o notebook.
Pegou o elevador.
A cabine decidiu quando acelerar e quando frear.
No estacionamento, o carro destravou ao reconhecê-lo.
Ele entrou.
O painel sugeriu o caminho de casa.
Havia um acidente na rota habitual.
Marcelo aceitou o desvio.
No meio do trajeto recebeu uma mensagem de um colega.
“Você acha errado usar IA para ajudar a escrever um livro?”
Marcelo leu no sinal vermelho.
Começou a responder:
“Depende. Se for só como ferramenta…”
Parou.
Apagou.
O mapa recalculou a rota porque ele havia perdido a entrada.
Marcelo seguiu a nova indicação.
Pensou um pouco mais.
Então escreveu:
“Talvez a pergunta esteja errada.”
Enviou.
O sinal abriu.
O carro indicou a marcha.
Marcelo acelerou.