No domingo ele abriu o CD de João Bosco e encontrou uma fotografia.
Não estava presa ao encarte nem parecia fazer parte da edição. Era pequena, dessas reveladas em laboratório, com as bordas já começando a amarelar. Um homem e uma mulher estavam sentados numa mesa de plástico, cada um segurando um copo. Atrás deles havia um muro branco, uma árvore e um pedaço de céu estourado pelo sol.
Nenhum dos dois olhava para a câmera.
Ele virou a foto.
Em caneta azul, uma frase:
Guaratuba, janeiro de 2001.
Não esquece dessa música.
Não havia nome.
Ficou alguns segundos olhando para a letra.
Depois colocou o CD no aparelho.
Pela primeira vez desde que saíra do sebo, a pergunta não era quem tinha comprado aquele disco.
Era qual música não deveria ser esquecida.
Sentou no chão, perto da caixa de som, com o encarte aberto sobre as pernas.
As faixas começaram a passar.
Tentou não interferir. Não queria escolher cedo demais. A fotografia estava sobre a mesa, voltada para cima, e de vez em quando ele olhava para o casal como se os dois pudessem dar alguma pista.
Pareciam jovens.
Ou talvez fossem apenas mais jovens do que seriam agora.
Era difícil estimar idade em fotografias antigas. Uma camiseta, um corte de cabelo, a qualidade da revelação — tudo conspirava para colocar as pessoas numa época antes de colocá-las numa idade.
Na terceira faixa, pensou:
Pode ser essa.
Na quinta:
Talvez essa.
Na oitava já tinha entendido que o exercício era inútil.
Qualquer música poderia ter sido aquela.
Talvez nem estivesse naquele CD.
Talvez a fotografia tivesse sido guardada ali apenas porque a caixa estava à mão quando alguém decidiu que certas coisas precisavam ficar juntas.
Pegou a foto novamente.
A mulher parecia estar dizendo alguma coisa. O homem sorria para ela, não para a câmera.
Era isso que incomodava.
A fotografia não tinha sido feita para registrar um lugar.
Tinha sido feita para registrar aquele momento entre os dois.
Passou o domingo pensando nela.
Na segunda-feira, colocou a foto de volta dentro da caixa.
Na terça, tirou de novo.
Na quarta, decidiu voltar ao sebo.
A mulher do balcão o reconheceu antes que ele dissesse qualquer coisa.
— Já terminou tudo?
— Nem comecei.
Colocou a fotografia sobre o balcão.
— Isso estava dentro de um dos CDs.
Ela pegou pelos cantos, examinou a frente e o verso.
— João Bosco?
— Como você sabe?
— Tava numa caixa grande. MPB, mais umas coisas antigas.
— Você lembra de onde veio?
A mulher devolveu a fotografia.
— A gente recebe muita coisa.
Ele esperou.
— Casa esvaziada, mudança, gente vendendo coleção inteira. Às vezes os filhos trazem.
— Filhos?
— Ou irmãos. Não lembro desse lote.
Ela voltou a olhar a foto.
— Bonita.
Ele concordou.
— Pensei que talvez alguém viesse procurar.
A mulher sorriu.
— Foto perdida ninguém procura aqui.
Disse aquilo sem crueldade.
Como quem conhecia uma lei simples do ofício.
Livros, discos, relógios, louças: sim.
Fotografias não.
Fotografias eram aquilo que aparecia dentro das outras coisas.
Ele guardou a imagem no bolso.
Antes de sair, passou pela seção de CDs.
O espaço onde encontrara João Bosco na semana anterior já estava preenchido por outros discos.
Pegou um deles.
Abriu.
Nada.
Abriu outro.
Nada.
No terceiro havia um recibo antigo dobrado atrás do encarte.
Uma farmácia.
Dois medicamentos.
2004.
Guardou de volta.
Aquilo podia virar um hábito perigoso.
Saiu sem comprar nada.
No caminho para casa, entrou numa cafeteria e colocou a fotografia sobre a mesa.
Pela primeira vez observou o fundo com atenção.
Havia alguma coisa escrita no muro.
Duas letras talvez.
Ou o final de uma palavra.
Mais atrás, uma cadeira vazia.
Sobre a mesa, além dos copos, um cinzeiro vermelho.
A mulher usava um relógio.
O homem tinha uma marca clara no dedo onde deveria haver uma aliança, ou talvez fosse apenas reflexo.
Era possível construir qualquer vida com informação suficiente para quase nenhuma.
Casados.
Amantes.
Irmãos.
Amigos.
Gente que acabara de se conhecer.
Gente prestes a nunca mais se ver.
Pegou o telefone.
Por alguns segundos pensou em fotografar a imagem e publicar na internet.
Alguém conhece essas pessoas?
Seria fácil.
Talvez aparecesse alguém.
Talvez existisse uma história inteira esperando atrás de uma busca.
Guardou o telefone.
Não.
Havia alguma coisa naquela fotografia que ainda pertencia aos dois.
Não tinha certeza de possuir o direito de transformar aquilo em investigação.
Terminou o café e voltou para casa.
Naquela noite colocou João Bosco novamente.
Dessa vez não tentou descobrir a música.
Deixou o disco tocar.
Na metade do álbum percebeu que havia criado outra pergunta:
E se a pessoa que deveria não esquecer tivesse esquecido?
A frase podia ser uma ordem amorosa.
Uma brincadeira.
Uma despedida.
Uma promessa.
Mas havia outra possibilidade.
Talvez alguém tivesse escrito aquilo justamente porque sabia que esqueceria.
Ele conhecia esse impulso.
Anotava coisas pelo mesmo motivo.
Datas.
Frases.
Nomes de livros.
Músicas que queria ouvir.
Lugares aos quais pretendia voltar.
Não porque sua memória fosse ruim.
Porque a memória era uma editora.
Cortava sem consultar.
Mudava a ordem.
Eliminava personagens secundários.
Às vezes reescrevia completamente uma cena e deixava a pessoa convencida de que sempre acontecera daquele jeito.
Pegou um caderno.
Escreveu:
Guaratuba, janeiro de 2001.
Abaixo:
Duas pessoas numa mesa. Uma delas pediu à outra que não esquecesse uma música.
Parou.
Depois acrescentou:
Não sei qual.
Aquilo parecia suficiente.
Nos dias seguintes, a fotografia ficou dentro do caderno.
Não no CD.
Achou que tinha feito uma pequena traição ao objeto, separando coisas que talvez tivessem permanecido juntas por vinte e cinco anos.
Uma semana depois, abriu o caderno para escrever outra coisa e a encontrou.
Dessa vez reparou que havia algo quase apagado abaixo da frase no verso.
Aproximou da janela.
Virou contra a luz.
Não era uma palavra.
Era um número.
7
Só isso.
Voltou ao CD.
Abriu a lista de faixas.
Contou.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Sete.
Ficou olhando para o título.
Riu.
Era uma pista tão perfeita que desconfiou dela imediatamente.
Talvez o sete fosse o número de uma mesa.
Talvez parte de uma data.
Talvez alguém tivesse começado a escrever um telefone.
Mas agora já não importava.
Colocou a faixa sete.
Sentou.
A música começou.
Ele não tentou imaginar o casal em Guaratuba.
Não tentou reconstruir janeiro de 2001.
Não tentou decidir se ainda estavam vivos, juntos, separados, ou se um deles continuava lembrando exatamente daquele dia.
Escutou.
Quando terminou, colocou novamente.
Depois uma terceira vez.
Naquela noite guardou a fotografia de volta na caixa do CD.
Antes de fechar, escreveu uma coisa num pequeno pedaço de papel.
Não assinou.
Colocou junto.
Encontrei isto em 2026.
Também ouvi a faixa 7.
Fechou a caixa.
Um dia aquele disco talvez voltasse para um sebo.
Talvez por decisão dele.
Talvez por decisão de outra pessoa.
Alguém abriria o encarte e encontraria primeiro a fotografia.
Depois a frase de 2001.
Depois o bilhete.
Talvez ouvisse a música.
Talvez não.
Mas durante algum tempo, pelo menos, ninguém teria esquecido.