Escrita

Os mistérios sutis e o estranho conforto de Blackwater

Depois dos seis volumes, Blackwater ficou com quatro estrelas: uma saga em que o sobrenatural entra sem alarde e quase tudo encontra um jeito de dar certo.

No dia 25 de setembro, terminei A chuva, o sexto volume de Blackwater, e finalmente consegui dar uma nota para a série inteira: quatro estrelas.

O que ficou da leitura não foi uma grande reviravolta no final. Foi a maneira como o sobrenatural entrou na rotina da família Caskey sem precisar anunciar cada mistério e o conforto inesperado de acompanhar uma história em que quase tudo encontra um jeito de dar certo.

Eu havia dado três estrelas a cada um dos três primeiros livros. Não me arrependo dessas notas, mas elas registram apenas a impressão deixada por cada parte. A série completa funcionou melhor para mim.

Terminei A casa e comecei A guerra no mesmo dia. Seis dias depois, havia chegado ao fim da série. Eu talvez não estivesse entusiasmado com cada volume isoladamente, mas estava bastante interessado em permanecer naquela história.

O estranho quase nunca levanta a voz

Uma das coisas que mais gostei foi a maneira como Michael McDowell apresenta os mistérios. Há algo estranho em Perdido desde o começo, mas o texto não interrompe a vida da família toda vez que quer lembrar disso.

O mistério aparece no meio das casas, dos negócios, dos casamentos, das disputas e das conversas familiares. Algumas informações chegam sem destaque. Outras permanecem sem a explicação que eu esperaria encontrar numa história mais preocupada em resolver cada segredo diante do leitor.

Essa sutileza funcionou para mim. McDowell não precisa transformar toda pista em anúncio nem preparar uma revelação para justificar cada coisa estranha. O insólito faz parte da rotina de Perdido. Em muitos momentos, as personagens parecem mais dispostas a continuar vivendo do que a investigar aquilo que eu, como leitor, gostaria de entender.

O resultado é um tipo de mistério que não depende apenas da pergunta sobre o que acontecerá depois. Eu também queria observar quanto daquilo seria aceito, ignorado ou incorporado pela família.

Uma história com um pouco de cozy

Pode parecer estranho usar cozy para falar de Blackwater. A série tem violência, mortes, ressentimentos e acontecimentos sobrenaturais. Não estou tentando encaixá-la numa classificação de gênero.

Estou falando da sensação que a leitura me deu.

Apesar de tudo o que ameaça os Caskey, a história passa muito tempo mostrando a vida seguindo em frente. A família cresce, os negócios avançam, novas casas aparecem e os problemas quase sempre encontram alguma acomodação. Quase tudo vai dando certo, ainda que nem sempre do modo mais justo ou tranquilo.

Isso retirou parte da tensão, mas também criou um conforto inesperado. Eu queria saber o que aconteceria, porém gostava igualmente de reencontrar Perdido e passar mais algum tempo acompanhando aquela família. A série virou companhia.

Parte dessa convivência aconteceu em audiolivro, durante os passeios com o cachorro.

Gilmar Pupo usa fones de ouvido enquanto passeia com o cachorro em uma calçada ensolarada.
Passeando com o cachorro enquanto ouço um dos audiolivros da série Blackwater.

Blackwater foi publicada originalmente em seis volumes, em 1983. Depois de terminar todos eles, essa divisão passou a me parecer menos importante do que o tempo completo que a narrativa acompanha. Nenhum volume isolado me impressionou tanto quanto a forma que os seis construíram juntos.

Por isso, mantenho as três estrelas dos primeiros livros e dou quatro para a série. O ponto a mais está na construção paciente, nos mistérios apresentados sem alarde e nessa estranha combinação entre o sobrenatural e uma história em que quase tudo encontra um jeito de continuar dando certo.

Não foi uma série de seis livros extraordinários para mim. Foi uma história muito boa que precisou dos seis para mostrar direito o que estava fazendo.