O sertão metafórico de Guimarães Rosa e o New York State of Mind, de Billy Joel, são da mesma natureza.
Nos dois casos, o lugar não é necessariamente o lugar.
O sertão pode estar aqui onde vivo.
Nova York também.
Não porque minha cidade tenha se transformado geograficamente em Minas ou Manhattan, mas porque esses nomes podem designar algo que ultrapassa o território de origem.
O sertão pode ser uma condição, uma travessia, uma forma de perceber o mundo.
Nova York pode ser um estado de espírito, uma disposição interior, uma maneira de estar no mundo.
Nesse sentido, o lugar deixa de responder apenas à pergunta “onde estou?” e passa a responder também a outra:
“De que lugar estou vendo o mundo?”
É possível estar em Nova York sem estar em Nova York.
É possível estar no sertão sem estar no sertão.
A geografia permanece, mas o lugar já se tornou outra coisa.
Por isso, muitas vezes estou no Nordeste de Ariano Suassuna e do Romance d’A Pedra do Reino, mesmo sem ter saído de Curitiba.
Vejo esta cidade se dividindo entre um cordão azul e um cordão encarnado. Reconheço nela fidalgos, profetas, corregedores, cavaleiros, disputas de reino e pequenas cortes improvisadas. Não porque essas coisas estejam literalmente diante de mim, mas porque aquele sertão me forneceu uma linguagem para enxergar o lugar onde estou.
É nesse sentido que o lugar não é necessariamente o lugar.
O sertão de Rosa pode estar aqui. O Nordeste mítico de Ariano também.
E Nova York pode surgir numa música de Leroy Hutson, mesmo que a música não fale de Nova York.
Porque, a certa altura, Nova York já não é apenas Nova York. É uma luz, um ritmo, uma noite, uma determinada sensação de cidade. Assim como o sertão já não precisa ser uma coordenada no mapa para que eu o reconheça.
Talvez seja esse o ponto: depois que certos lugares entram em nós pela literatura, pela música ou pela memória, eles se desprendem parcialmente de sua geografia.
Passamos a encontrá-los em outros lugares.
Às vezes, até onde sempre estivemos.