Escrita

O sertão de Rosa, a Nova York de Billy Joel e os lugares que carregamos

Uma aproximação entre Guimarães Rosa, Billy Joel e Ariano Suassuna: quando um lugar se desprende do mapa e passa a nomear uma forma de ver o mundo.

O sertão metafórico de Guimarães Rosa e o New York State of Mind, de Billy Joel, são da mesma natureza.

Nos dois casos, o lugar não é necessariamente o lugar.

O sertão pode estar aqui onde vivo.

Nova York também.

Não porque minha cidade tenha se transformado geograficamente em Minas ou Manhattan, mas porque esses nomes podem designar algo que ultrapassa o território de origem.

O sertão pode ser uma condição, uma travessia, uma forma de perceber o mundo.

Nova York pode ser um estado de espírito, uma disposição interior, uma maneira de estar no mundo.

Nesse sentido, o lugar deixa de responder apenas à pergunta “onde estou?” e passa a responder também a outra:

“De que lugar estou vendo o mundo?”

É possível estar em Nova York sem estar em Nova York.

É possível estar no sertão sem estar no sertão.

A geografia permanece, mas o lugar já se tornou outra coisa.

Uma vereda atravessa a vegetação sob o céu azul no Parque Nacional Grande Sertão Veredas.
Uma vereda no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Minas Gerais. Foto: Vitor 1234/Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0; imagem convertida para WebP.

Por isso, muitas vezes estou no Nordeste de Ariano Suassuna e do Romance d’A Pedra do Reino, mesmo sem ter saído de Curitiba.

Vejo esta cidade se dividindo entre um cordão azul e um cordão encarnado. Reconheço nela fidalgos, profetas, corregedores, cavaleiros, disputas de reino e pequenas cortes improvisadas. Não porque essas coisas estejam literalmente diante de mim, mas porque aquele sertão me forneceu uma linguagem para enxergar o lugar onde estou.

É nesse sentido que o lugar não é necessariamente o lugar.

O sertão de Rosa pode estar aqui. O Nordeste mítico de Ariano também.

E Nova York pode surgir numa música de Leroy Hutson, mesmo que a música não fale de Nova York.

Porque, a certa altura, Nova York já não é apenas Nova York. É uma luz, um ritmo, uma noite, uma determinada sensação de cidade. Assim como o sertão já não precisa ser uma coordenada no mapa para que eu o reconheça.

Talvez seja esse o ponto: depois que certos lugares entram em nós pela literatura, pela música ou pela memória, eles se desprendem parcialmente de sua geografia.

Passamos a encontrá-los em outros lugares.

Às vezes, até onde sempre estivemos.