Tenho pensado bastante em publicar um livro que escrevi há alguns anos.
O manuscrito existe. A história existe. A ideia de uma edição também começa a ganhar forma.
O livro é Jeff mais leve que o ar. Por enquanto, em vez de publicar os capítulos, estou registrando as decisões que antecedem uma possível edição.
Mas a parte que mais tem me ocupado não é exatamente escrever o livro.
É decidir como colocá-lo no mundo.
A solução mais óbvia seria procurar uma editora.
Mas aí surge a primeira dúvida: quando uma editora cobra do próprio autor para publicar, o que exatamente está sendo comprado?
Impressão?
Distribuição?
Serviços editoriais?
Ou a sensação de ter sido publicado?
Em que momento contratar uma editora deixa de ser uma parceria editorial e passa a ser apenas comprar um pacote com o próprio livro dentro?
Outra possibilidade seria seguir pelo caminho mais comum da autopublicação e colocar tudo numa grande plataforma.
Amazon, por exemplo.
É difícil ignorar a conveniência. Na apresentação do Kindle Direct Publishing, a Amazon reúne publicação digital e impressa, presença em suas lojas, impressão sob demanda e envio dos exemplares aos compradores. É uma infraestrutura que eu provavelmente jamais construiria sozinho.
Mas aí surge outra pergunta.
De quem passa a ser a experiência?
Quando alguém encontra meu livro numa plataforma dessas, está entrando no universo do livro ou no universo da loja?
Isso importa?
Talvez não.
Talvez muito.
Eu também poderia seguir para o extremo oposto.
Publicar tudo no meu próprio site.
HTML.
EPUB.
PDF.
Sem entregar a uma grande plataforma o controle do catálogo, do formato e da relação com o leitor.
Mas então aparece um problema diferente.
Um livro disponível para download continua parecendo um livro?
Ou começa a parecer apenas mais um arquivo?
Existe diferença entre:
baixar um PDF
e
adquirir uma edição digital?
Se existe, onde essa diferença começa?
No preço?
Na capa?
Na diagramação?
Na existência de uma ficha editorial?
No cuidado com a tipografia?
Na sensação de que aquilo foi produzido como uma obra e não simplesmente exportado de um editor de texto?
E há ainda o livro físico.
Tenho pensado em ilustrações feitas em papel, em adquirir os originais e em usar essas imagens dentro da obra.
Nesse cenário, a impressão deixa de ser apenas um meio de transportar texto.
Ela passa a fazer parte do objeto.
Mas então aparecem novas perguntas.
Faz sentido imprimir centenas de exemplares sem saber quem vai lê-los?
É melhor produzir poucos?
Uma primeira edição de 50, 100 ou 200 exemplares teria mais significado?
Numerar os livros acrescenta alguma coisa ou seria apenas uma tentativa artificial de criar escassez?
E se o livro estiver disponível gratuitamente para leitura na web, isso diminui o valor da edição física?
Ou faz justamente o contrário?
Talvez alguém leia tudo no site e ainda queira o objeto.
Talvez ninguém queira.
Quanto do valor de um livro está no texto?
Quanto está no papel?
Quanto está na edição?
Quanto está na ideia de possuir aquele objeto?
Também fico pensando no papel da distribuição.
Se eu vender diretamente, mantenho a relação com quem comprou.
Mas quantas pessoas jamais encontrarão o livro?
Se eu usar uma grande plataforma, provavelmente ganho alcance.
Mas quanto dessa relação deixa de ser minha?
Existe um ponto razoável entre essas duas coisas?
Uma plataforma pode ser apenas um canal, sem virar a casa do livro?
Ou, na prática, o canal sempre acaba moldando a obra?
E talvez a pergunta mais desconfortável seja outra.
O que significa “publicar” hoje?
Ter ISBN?
Estar numa livraria?
Ter exemplares impressos?
Estar na Amazon?
Ter leitores?
Ter vendido determinada quantidade?
Ou simplesmente assumir que aquele texto chegou à forma em que eu queria colocá-lo diante de outras pessoas?
Não tenho resposta para isso ainda.
E talvez seja justamente por isso que estou escrevendo.
Se você tivesse escrito um livro e quisesse publicá-lo sem simplesmente pagar para alguém chamá-lo de publicado, mas também sem transformar tudo em um arquivo esquecido para download, o que faria?
Procuraria uma editora tradicional?
Publicaria por uma grande plataforma?
Criaria uma edição própria?
Faria uma tiragem pequena?
Deixaria o livro inteiro disponível na web?
Venderia somente o objeto físico?
Misturaria esses caminhos?
E, principalmente:
O que faria um livro parecer, para você, algo que realmente foi publicado?