Equipamento Musical

O instrumento não termina na regulagem

A pressão da mão, a força da palhetada e a técnica mudam a resposta da guitarra. Uma lembrança de aula e a guitarra de Bo Diddley mostram por que não existe regulagem universal.

Durante uma aula, meu professor comentou uma coisa que parece estranha à primeira vista: uma guitarra pode parecer perfeitamente afinada na mão de uma pessoa e ligeiramente desafinada na mão de outra.

Não porque a afinação tenha misteriosamente mudado, mas porque o músico faz parte do sistema.

A força com que apertamos uma corda contra o traste interfere na altura da nota. Apertar além do necessário pode aumentar a tensão da corda e fazer a nota subir um pouco. A própria palhetada também tem efeito: um ataque mais forte desloca mais a corda e pode produzir uma elevação transitória no início da nota, o pitch glide descrito em estudos de cordas dedilhadas. Some-se a isso a forma de apoiar a mão, de segurar o braço, o calibre das cordas, a altura delas em relação aos trastes e a maneira como cada músico executa bends e vibratos.

Ou seja: duas pessoas podem pegar o mesmo instrumento, poucos segundos uma depois da outra, e ter experiências diferentes com sua afinação, sua dinâmica e sua tocabilidade.

A guitarra de Bo Diddley

Isso me lembrou de uma passagem da autobiografia de Ronnie Wood.

Capa de Ronnie: The Autobiography, com Ronnie Wood segurando a gola do casaco diante de um fundo escuro.
Capa da edição inglesa de Ronnie: The Autobiography usada como referência.

No capítulo “Gunslingers”, Wood fala sobre tocar com Bo Diddley e descreve a guitarra de Bo. Era um instrumento retangular, pesado, feito à mão e cheio de eletrônica interna. Mas o que chama atenção é a regulagem: Wood conta que Bo usava cordas extremamente grossas, difíceis de dobrar, colocadas muito acima do braço. Além disso, tocava com afinação aberta.

A conclusão de Wood é curta:

“No easy feat, believe me.”

Em português: não era tarefa fácil, acredite em mim.

A passagem está em Ronnie: The Autobiography, no capítulo “Gunslingers”, p. 258 da edição inglesa. Wood já havia passado pelo Jeff Beck Group e pelo Faces e entrado nos Rolling Stones em 1975. Mesmo assim, olhava para aquele instrumento e reconhecia uma dificuldade muito particular.

Isso ajuda a desmontar outra ideia comum: a de que existe uma regulagem universalmente “boa”.

Podemos medir ação, oitavas, raio, curvatura do braço, altura dos captadores e dezenas de outras coisas. Existem, evidentemente, parâmetros técnicos e limites razoáveis. Mas, depois deles, aparece o músico.

Uma ação baixíssima pode ser maravilhosa para quem toca com ataque leve e simplesmente insuportável para quem toca forte. Cordas pesadas podem parecer duras e desnecessárias para alguém e perfeitamente naturais para quem passou décadas tocando assim. Um braço considerado grosso por um guitarrista pode ser justamente aquilo que outro procura.

Até aquilo que chamamos de conforto é aprendido.

Bo Diddley não estava tentando transformar sua guitarra numa guitarra confortável para Ronnie Wood. Era a guitarra de Bo Diddley. O instrumento, a regulagem e a técnica tinham crescido juntos.

Regulada para quem?

É aí que a observação sobre afinação fica ainda mais interessante.

Quando levamos uma guitarra ao luthier e dizemos “quero ela perfeitamente regulada”, falta uma informação importante: regulada para quem?

Um bom ajuste não deveria considerar apenas medidas abstratas. Deveria considerar também como o músico toca: quanto aperta as cordas, quão forte ataca, onde costuma tocar, quais calibres prefere e até qual comportamento espera do instrumento.

Talvez isso explique também por que às vezes pegamos a guitarra de alguém que admiramos e pensamos:

— Como essa pessoa consegue tocar nisso?

E provavelmente, se ela pegar a nossa, poderá pensar exatamente a mesma coisa.

Um instrumento bom não é necessariamente aquele que ficou mais próximo de algum ajuste ideal.

É aquele em que instrumento, regulagem e músico aprenderam a funcionar juntos.

Referências

A edição brasileira foi publicada como Ron Wood: A autobiografia de um Rolling Stone, pela Évora, em 2013, com tradução de Guy Corrêa.