Não tenho uma fotografia completa do meu primeiro equipamento de guitarra montado. Também não guardei nota fiscal, manual ou uma lista com cada modelo. O que tenho são algumas datas, imagens de referência e lembranças que voltam aos poucos.
Uma dessas datas é bastante precisa: minha primeira CNH foi expedida em 1995. É por ela que consigo localizar aquele período. Foi durante o ano de 1995 que comecei a ter aulas de guitarra com meu primeiro professor, Cassiano Nogara, e que comprei minha primeira guitarra e meu primeiro amplificador.
Uma Golden comprada na Avenida Brasil
Minha primeira guitarra foi uma Golden, comprada na Art e Som, loja que ficava na Avenida Brasil, em Cascavel, no Paraná.
Era a guitarra com a qual eu estava começando a aprender de verdade.
Era o instrumento das primeiras aulas, das primeiras tentativas de fazer os acordes soarem limpos e da descoberta de que tocar guitarra era muito diferente de apenas gostar do som de uma guitarra.
Nas primeiras aulas com Cassiano, aprendi a linha melódica de Liberty, de Steve Vai, e a tocar Patience, do Guns N’ Roses. Também aprendi a forma do blues tradicional. Fora das aulas, amigos como Kris me ensinavam riffs. Um deles foi o de Paranoid, do Black Sabbath.
Naquela época, comprar o instrumento era apenas o começo. Eu também precisava de alguma coisa que transformasse o sinal da guitarra em som dentro do quarto.
O cubo ATTACK de 100 watts
Na mesma loja comprei um cubo de guitarra ATTACK Audio System. Minha lembrança é de que tinha 100 watts.
O cubo era grande, muito pesado e, para ser honesto, um pouco sem graça.
Hoje consigo olhar para isso com alguma ternura. Quando estamos começando, potência parece uma qualidade absoluta. Cem watts soam como a promessa de que não vai faltar amplificador. Só mais tarde começamos a perceber que volume, timbre, dinâmica e prazer de tocar não são a mesma coisa.
O ATTACK talvez não fosse um amplificador inspirador, mas cumpriu uma função decisiva: fez a guitarra existir no ambiente. A partir dele, o que antes estava apenas nos discos e na imaginação podia sair de um alto-falante diante de mim, ainda que o som não fosse exatamente aquele que eu procurava.
O pedal que não podia ser desligado
Em algum momento daquela fase consegui também um pedal de distorção usado, um Oliver DS-10 Distortion.
O meu exemplar tinha um defeito muito particular: ele não podia ser desligado.
Se eu apertasse o pedal para desativá-lo, o som era cortado. Quando o ligava novamente, precisava esperar aproximadamente dez minutos para que o sinal voltasse. Não era exatamente a praticidade que se espera de um pedal de efeito.
Por isso desenvolvi uma solução simples: deixava o pedal ligado e usava o potenciômetro de distorção para decidir quanto efeito queria. Na prática, eu não alternava entre pedal ligado e desligado; alternava entre mais e menos distorção girando o controle.
Era uma gambiarra, mas também era uma pequena aula sobre equipamento musical. Antes de entender circuitos, bypass ou manutenção, eu já estava aprendendo que tocar envolve adaptar-se ao que está disponível. O equipamento tinha um defeito, então a maneira de usá-lo passou a incorporar esse defeito.
Hoje o Oliver DS-10 aparece para mim como um objeto cheio de personalidade. Não porque aquele exemplar funcionasse bem — claramente não funcionava —, mas porque exigia um ritual. Ligar, esperar e não desligar. Depois, controlar tudo pelo botão.
Um delay simples de que ainda me lembro
Também tive um pedal de delay comprado de Kristopher Venzke, em Cascavel.
Esse pedal já era muito usado e parecia bastante simples. Não me lembro da marca nem do modelo. Tenho a impressão de que era analógico, mas isso permanece apenas como uma hipótese baseada na lembrança do equipamento e do efeito.
Curiosamente, a falta de identificação técnica não diminui a memória que tenho dele. Ao contrário do amplificador, que ficou associado ao peso e a um som pouco interessante, o delay ficou associado a boas recordações.
Talvez fosse a primeira vez que eu ouvia uma nota tocada por mim voltar alguns instantes depois. Um delay transforma uma frase pequena em espaço. A guitarra deixa de ocupar apenas o instante do ataque e começa a conversar consigo mesma. Para quem está descobrindo efeitos, mesmo um pedal simples pode abrir um mundo.
Não sei dizer hoje qual era o circuito, qual era o tempo máximo de repetição ou quantos controles havia no painel. Lembro do resultado: eu gostava daqueles efeitos.
Onde foram parar os pedais e o amplificador?
Não sei. Também não me lembro de nada sobre o destino deles.
Naquela época eu ainda não entendia o valor de anotar. Não registrei quando deixei de usar o amplificador nem o que aconteceu com o Oliver e o delay. Sem esse registro, essa parte da história se perdeu.
Em 2025, esse começo completou três décadas. Embora eu não saiba onde foram parar os pedais e o amplificador, ainda guardo uma peça daquela época: minha primeira palheta, uma Dunlop Tortex já gasta.
O primeiro equipamento nunca é apenas equipamento
Quando tento reconstruir esse conjunto, ele fica mais ou menos assim:
- uma guitarra Golden;
- um cubo ATTACK grande, pesado e sem muita personalidade;
- um Oliver DS-10 que não podia ser desligado;
- um pedal de delay muito usado, provavelmente analógico e de modelo desconhecido.
Visto como uma lista de compras, não parece um equipamento especialmente sofisticado. Havia incertezas, limitações e pelo menos um defeito bastante sério.
Mas o primeiro equipamento raramente é importante porque reúne as melhores especificações. Ele é importante porque está presente quando ainda estamos descobrindo o que queremos fazer.
Foi com esse conjunto imperfeito que comecei a entender a relação entre as mãos, o instrumento, o amplificador e os efeitos. A distorção não era apenas um som ouvido numa gravação: estava naquele botão laranja que eu precisava controlar com cuidado. O delay não era uma palavra numa revista: era a repetição que aparecia depois da nota. O amplificador não era apenas potência: era também peso, volume e personalidade — ou a falta dela.
As fotografias ajudam a reconstruir a aparência dos objetos, mas não são exatamente o centro da lembrança. O que permanece é a sensação de estar no começo, tentando fazer música com aquilo que eu tinha.
Talvez seja isso que torna o primeiro equipamento inesquecível. Não era o melhor conjunto que eu teria. Era o conjunto com o qual tudo começou.