# O pianista morto apareceu a mim no Japão

Published: 2026-09-27
Author: Gilmar Pupo
Editorial: musica
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/musica/o-pianista-morto-apareceu-a-mim-no-japao/
Tags: Música, 45trio, Tenório Jr., Samba-jazz, Jazz japonês, Contrabaixo, Escuta

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O pianista morto apareceu a mim no Japão.

Algumas semanas antes, eu havia conhecido **Francisco Tenório Jr.** em
[*Atiraram no Pianista*](/musica/quatro-filmes-sobre-musica-durante-a-recuperacao-dos-sisos/).
O documentário acompanha a investigação sobre seu desaparecimento em Buenos
Aires, em 1976, e recupera, junto com ele, uma parte da música brasileira e da
violência política das ditaduras sul-americanas.

Naquela história, Tenório aparecia por meio da ausência.

Agora apareceu tocando numa música que ele nunca compôs.

<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/45trio-tenorio-nebulosa.jpg" alt="Arte do single #Tenorio c/w Nebulosa, do 45trio, sobre uma paisagem do Rio de Janeiro ao pôr do sol, com o Cristo Redentor à esquerda e barcos na água em primeiro plano." width="1200" height="1200" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Arte do single <em>#Tenorio c/w Nebulosa</em>, do 45trio. Imagem: <a href="https://flower-r.com/blms-019/">Bloom Music</a>.</figcaption>
</figure>

## Uma música imaginada para Tenório

Encontrei o **45trio** e três faixas chamaram minha atenção quase ao mesmo
tempo: **“#Tenorio”**, **“Saudade Vem Correndo”** e **“#Hutson”**.

Comecei por “#Tenorio” porque reconheci o nome. Imaginei que fosse uma versão de
alguma composição do pianista brasileiro. Não era.

“#Tenorio” é uma composição original do trio japonês. Segundo a
[apresentação do single pela Flower Records](https://flower-r.com/blms-019/), a
faixa foi escrita como homenagem a Tenório Jr. O próprio **SWING-O**, pianista e
líder do grupo, [explicou depois a ideia](https://note.com/swingo45/n/nc0d3d1aecda8):
imaginar se Tenório, caso ainda estivesse vivo, poderia ter escrito uma música
assim.

Foi aí que o pianista morto apareceu a mim no Japão.

Não como reconstituição histórica. Também não como uma gravação perdida. Ele
apareceu dentro da imaginação musical de outro pianista, num país distante e
quase cinquenta anos depois de seu desaparecimento.

Existe alguma coisa bonita e estranha nesse tipo de homenagem. Em vez de tocar
apenas uma obra já existente, alguém tenta escrever dentro do vocabulário que
associa ao músico homenageado. A música nova não pertence a Tenório. A pergunta
que a produziu, porém, depende daquilo que ele deixou.

## O caminho de volta até *Embalo*

O single ajuda a tornar essa relação mais clara. De um lado está “#Tenorio”, a
composição imaginada pelo 45trio. Do outro, **“Nebulosa”**, composição de
Tenório Jr. lançada em ***Embalo***, de 1964.

O [registro de *Embalo* no Instituto Memória Musical Brasileira](https://immub.org/album/embalo-tenorio-jr-e-seu-conjunto)
mostra um disco cercado por músicos como Milton Banana, Raul de Souza, Paulo
Moura, Hector Costita, J. T. Meirelles e Rubens Bassini. Foi o único álbum que
Tenório lançou como líder.

Passei então a ouvir em duas direções.

Primeiro, “#Tenorio”, uma música nova feita a partir da lembrança de um músico.
Depois, as duas versões de “Nebulosa”: a do 45trio e a de Tenório Jr. e Seu
Conjunto.

A homenagem passou a funcionar como uma porta de retorno. O trio não me levou
somente para sua própria discografia. Levou-me de volta a 1964 e a um disco que
eu ainda não havia escutado dessa maneira.

## Um trio japonês com muitas geografias

O [45trio foi formado em 2008](https://flower-r.com/artist-45trio/). Hoje reúne
**SWING-O**, no piano, **SUNAPANNG**, no baixo, e **Masahiko Kubo**, na bateria.
O grupo se apresenta como um trio ligado ao soul e ao hip-hop e diz considerar
a cena de clubes seu lugar de origem, mesmo depois de passar por festivais como
Fuji Rock e Summer Sonic.

Isso me ajudou a entender por que classificá-lo apenas como jazz japonês deixa
coisas demais de fora.

Outra das faixas que me trouxe até o grupo foi **“Saudade Vem Correndo”**. A
composição de Luiz Bonfá e Maria Toledo foi gravada por Stan Getz e Luiz Bonfá
em 1963 e reapareceu, décadas mais tarde, no sample usado por J Dilla em
**“Runnin’”**, do The Pharcyde. A
[própria apresentação da versão do 45trio](https://flower-r.com/45trio-3/)
explicita essa ligação com o hip-hop.

Minha escuta começou então a desenhar um percurso improvável:

**samba-jazz brasileiro → hip-hop norte-americano → trio japonês de piano.**

Mas as setas não apontavam apenas para a frente. Cada faixa também convidava a
andar para trás.

“Saudade Vem Correndo” levava a Luiz Bonfá, Maria Toledo, Stan Getz, J Dilla e
The Pharcyde. “#Tenorio” levava a “Nebulosa” e a *Embalo*. “#Hutson”, a terceira
música que me chamou a atenção, levava ao soul de **Leroy Hutson** e também a
**Weldon Irvine**.

Em vez de uma discografia fechada, encontrei um mapa.

## Retratos escritos com música

“#Tenorio” faz parte de uma série de composições-tributo do 45trio. Há também
**“#Jamal”**, dedicada a Ahmad Jamal, e **“#Hutson”**, dedicada a Leroy Hutson.

O procedimento me interessa porque não é exatamente o de um cover. O grupo
escreve uma música nova usando elementos que associa ao universo do
homenageado. São retratos sem rosto, feitos com ritmo, harmonia, timbre e
repertório.

Ainda estou começando a ouvir essas relações. Não saberia apontar com segurança
quais escolhas harmônicas pertencem a cada referência nem separar tudo o que
vem de Tenório daquilo que já é a linguagem do próprio 45trio.

Mas consigo acompanhar a pergunta.

Como escrever uma música nova que faça alguém reaparecer sem fingir que essa
música é dele?

## O pianista apareceu de novo

Quando assisti a *Atiraram no Pianista*, Tenório Jr. ficou associado à história
de um desaparecimento.

Ao encontrar “#Tenorio”, ele apareceu de outra maneira. Não deixou de ser o
músico ausente do documentário, mas voltou a ser também uma possibilidade
musical: alguém cuja maneira de tocar e compor ainda provoca outros músicos a
imaginar.
