# Impressions e Manhattan: uma história contada em tempos diferentes

Published: 2026-10-03
Author: Gilmar Pupo
Editorial: musica
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/musica/impressions-manhattan-e-uma-historia-contada-em-tempos-diferentes/
Tags: Jazz, John Coltrane, Wes Montgomery, Eric Johnson, Guitarra, Escuta

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Há dias em que as coisas não apenas acontecem em sequência. Elas parecem
responder umas às outras.

Na aula de guitarra de 2 de outubro de 2026, meu professor, André Machado,
indicou [*Impressions* na interpretação de Wes
Montgomery](https://www.youtube.com/watch?v=7O0RPdI2vR8). A proposta não era
ouvir apenas as notas nem tentar acompanhar cada frase. Era perceber a
construção da performance em grandes movimentos: primeiro as linhas melódicas,
depois as oitavas, por fim os acordes.

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A música se transformava diante de mim sem deixar de ser a mesma.

Essa orientação mudou a maneira como escutei a gravação. Em vez de procurar
somente aquilo que Wes tocava, comecei a prestar atenção em como ele contava a
história. A passagem de uma única linha para as oitavas e então para os acordes
não era apenas uma demonstração de técnica. Para mim, era uma mudança de
textura, densidade e perspectiva. Como se a mesma ideia fosse narrada três
vezes, cada vez com outra voz.

## Uma aula que continuou no sebo

No mesmo dia, visitei um sebo. Entre os discos, encontrei *The Complete Graz
Concert*, de John Coltrane. No segundo CD estava *Impressions*.

<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/the-complete-graz-concert-capa.webp" alt="Capa de The Complete Graz Concert, com John Coltrane segurando o saxofone sobre um fundo em tons de vinho." width="500" height="442" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Capa da edição Charly britânica catalogada no <a href="https://musicbrainz.org/release/a0baa375-4038-4ae7-bd94-3e56a1cc036d">MusicBrainz</a>.</figcaption>
</figure>

Não era a gravação de Wes que André havia indicado. Era a composição
retornando ao seu autor, registrada num concerto de 1962 em Graz. Ainda assim,
encontrar aquele título algumas horas depois da aula produziu uma sensação
difícil de reduzir à simples coincidência.

A música que havia chegado como tarefa de escuta agora aparecia diante de mim
como objeto, guardada num álbum usado e esperando numa prateleira de sebo.

Foi como se a aula tivesse continuado fora da aula.

## A história chegou fora de ordem

Eu tinha chegado a *Impressions* pela guitarra de Wes, mas o disco me levava de
volta a Coltrane. A ordem da minha descoberta era o inverso da cronologia:
primeiro ouvi a tradução; depois encontrei uma das vozes de origem.

Talvez seja assim que muitas histórias musicais se revelem. Elas não chegam
arrumadas por data. Começamos por uma ponta qualquer e, ao puxar o fio,
descobrimos que ele atravessa décadas.

A faixa *Impressions* publicada no álbum homônimo veio das apresentações de
novembro de 1961 no Village Vanguard; [o disco seria lançado pela Impulse! em
1963](https://store.johncoltrane.com/products/impressions-acoustic-sounds-lp).
O concerto de Graz aconteceu em 28 de novembro de 1962 e foi gravado pela ORF,
que ainda preserva as fitas originais em seu arquivo. O programa daquela noite
também incluía [*Impressions*](https://oe1.orf.at/programm/20260919/844785/John-Coltrane-1962-in-Graz).

<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/impressions-john-coltrane-capa.webp" alt="Edição em vinil de Impressions, de John Coltrane, com capa preta, vermelha e azul e o disco parcialmente exposto." width="1200" height="1200" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Edição de <em>Impressions</em> apresentada na <a href="https://store.johncoltrane.com/products/impressions-acoustic-sounds-lp">loja oficial de John Coltrane</a>.</figcaption>
</figure>

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Em 1965, Wes levou a composição para a guitarra. A discografia de sua turnê
europeia registra a apresentação de 4 de abril no programa *Jazz Prisma*, em
Bruxelas, com Harold Mabern no piano, Arthur Harper no contrabaixo e Jimmy
Lovelace na bateria.

Décadas depois, em 1996, Eric Johnson lançaria *Manhattan* em [*Venus
Isle*](https://www.ericjohnson.com/venus-isle).

André também havia indicado *Manhattan* como uma música em que valia a pena
investigar a influência de Wes. Passei então a ouvi-la sem parar.

<iframe src="https://www.youtube-nocookie.com/embed/reHoA0xxo_o" title="Eric Johnson — Manhattan" width="560" height="315" loading="lazy" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>

## O que passei a ouvir em *Manhattan*

*Manhattan* não soa como uma continuação literal de *Impressions*, e não
preciso forçar essa relação para que ela faça sentido. Não há aqui uma linha
reta dizendo que uma música nasceu da outra.

O elo está na escuta proposta durante a aula: clareza da melodia, espaço entre
as frases, articulação e a maneira como a intensidade cresce. Depois de
observar Wes transformar a textura de *Impressions*, eu já não conseguia ouvir
*Manhattan* apenas como uma faixa isolada. Havia aprendido a procurar o
movimento maior da música.

Quanto mais eu repetia *Manhattan*, mais a indicação se abria. A influência não
precisava aparecer como uma citação reconhecível. Ela podia estar numa maneira
de fazer a guitarra cantar, de sustentar uma ideia e de permitir que o timbre
também narrasse. Podia estar menos em uma frase específica e mais numa atitude
diante do instrumento.

Essa é uma interpretação que comecei a investigar pela comparação proposta na
aula, não uma afirmação de que *Manhattan* derive de *Impressions* ou de que
Eric Johnson tenha composto a faixa pensando nela. A ponte, para mim, é Wes
Montgomery.

Foi então que tudo começou a se encaixar: não como uma explicação fechada, mas
como uma sequência de encontros.

Coltrane ofereceu uma música capaz de sustentar longos desenvolvimentos. Wes a
reorganizou pela linguagem da guitarra: linhas, oitavas e acordes. Eric
Johnson, em outro tempo e outro universo musical, fez a guitarra contar uma
história por meio de melodia, timbre, espaço e crescimento. André colocou essas
escutas lado a lado. No mesmo dia, o sebo devolveu *Impressions* às minhas mãos
num disco de Coltrane.

O que se formou não foi apenas uma linha do tempo. Foi uma espécie de montagem:
1961, 1962, 1965, 1996 e 2026 presentes na mesma experiência de escuta. Cada
músico falou em seu próprio tempo, mas eu os ouvi conversando no meu.

Talvez por isso a repetição de *Manhattan* tenha feito tanto sentido. Eu não
estava somente gostando de uma música e apertando o play outra vez. Estava
tentando permanecer dentro daquela conversa por mais tempo. A cada repetição,
alguma ligação parecia ficar mais nítida: a guitarra como voz, a textura como
forma, a intensidade como narrativa.

Uma coincidência não prova que os acontecimentos estavam destinados a se
encontrar. Mas pode nos ensinar a prestar atenção. Naquele dia, uma indicação
feita em aula, um álbum encontrado num sebo e uma música ouvida sem parar
deixaram de ser episódios separados. Tornaram-se capítulos de uma mesma
história.

Uma história que não foi contada do começo para o fim.

Coltrane começou antes de eu chegar. Wes retomou o fio alguns anos depois. Eric
falou décadas mais tarde. André me mostrou por onde escutar. O sebo colocou uma
peça concreta dessa história diante de mim. E eu, em 2026, reuni esses tempos
durante um único dia.

Tudo se encaixou não porque aconteceu ao mesmo tempo, mas justamente porque
veio de tempos diferentes.

## Fontes consultadas

- [*Impressions* — loja oficial de John
  Coltrane](https://store.johncoltrane.com/products/impressions-acoustic-sounds-lp).
- [John Coltrane em Graz, em 1962 — arquivo da
  ORF](https://oe1.orf.at/programm/20260919/844785/John-Coltrane-1962-in-Graz).
- [Discografia de Wes Montgomery — sessões de
  1965](https://wesmontgomery.net/wp-content/uploads/WES-MONTGOMERY_VERVE-1965.pdf).
- [*Venus Isle* — site oficial de Eric
  Johnson](https://www.ericjohnson.com/venus-isle).
