# De Tóquio a Jorge Ben, e de Jorge Ben a Rod Stewart

Published: 2026-09-29
Author: Gilmar Pupo
Editorial: musica
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/musica/de-toquio-a-jorge-ben-e-de-jorge-ben-a-rod-stewart/
Tags: Música, 45trio, Jorge Ben, Rod Stewart, Jazz japonês, Música brasileira, Descoberta musical

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Eu estava ouvindo uma coletânea de jazz da cena japonesa quando uma música
começou a soar estranhamente familiar.

Não era aquela sensação de reconhecer imediatamente uma gravação. Era mais
vaga: eu conhecia aquilo de algum lugar. A melodia, o movimento, alguma coisa já
estava guardada na memória.

Fui olhar.

Era o **[45trio tocando “Taj Mahal”](https://linkco.re/6SGTRn9Q?lang=en)**.

E então tudo se encaixou: era Jorge Ben.

Gosto quando isso acontece porque a descoberta funciona ao contrário. Em vez de
partir de uma música conhecida para procurar suas versões, encontrei primeiro a
releitura japonesa e só depois fiz o caminho de volta até a origem.

O [45trio](https://flower-r.com/artist-45trio/) é um trio de piano formado em
Tóquio que se move entre soul, hip-hop, jazz-funk e *rare groove*. Na versão
lançada em 2020, “Taj Mahal” continua perfeitamente reconhecível, mas aparece
dentro de outra paisagem sonora.

É o mesmo grupo sobre o qual escrevi em
[“O pianista morto apareceu a mim no Japão”](/musica/o-pianista-morto-apareceu-a-mim-no-japao/).

Minha pequena sequência de descobertas naquele momento era:

**45trio → Jorge Ben**

Comentei isso algum tempo depois com meu professor de inglês. Mostrei a versão
do 45trio e contei justamente sobre esse reconhecimento: estava ouvindo jazz
japonês, alguma coisa me pareceu conhecida e acabei chegando novamente a Jorge
Ben.

Ele ouviu e me contou outra história.

— Você conhece a história dessa música com Rod Stewart?

Eu conhecia **“Da Ya Think I’m Sexy?”**, claro. Mas nunca tinha colocado as duas
músicas lado a lado.

A sequência ganhou então mais uma seta:

**45trio → Jorge Ben → Rod Stewart**

“Taj Mahal” apareceu no álbum [***Ben***, de
1972](https://immub.org/album/ben). Seis anos depois, Rod Stewart lançou
[“Da Ya Think I’m Sexy?”](https://www.officialcharts.com/songs/rod-stewart-da-ya-think-im-sexy/),
cujo refrão carrega uma semelhança difícil de ignorar com a melodia de Jorge
Ben.

Depois que alguém aponta, fica complicado desouvir.

A história que chegou até mim — e que conto aqui sem nenhuma pretensão de
reconstruí-la com precisão de historiador da música — é mais ou menos esta.

Segundo o [relato que o próprio Stewart publicou em sua autobiografia de
2012](https://www.musicradar.com/artists/we-wrote-the-biggest-selling-single-that-rod-ever-had-and-it-took-us-an-hour-to-put-it-down-it-ended-up-selling-millions-all-around-the-world-when-rod-stewart-and-drummer-carmine-appice-created-a-controversial-disco-era-smash-hit),
ele ouviu “Taj Mahal” durante o Carnaval do Rio de 1978. A melodia teria ficado
guardada na memória e ressurgido mais tarde enquanto ele procurava uma linha
para o refrão de “Da Ya Think I’m Sexy?”. Stewart chamou o episódio de **plágio
inconsciente**.

Esse é o relato de Stewart, não uma reconstrução independente do que aconteceu
no estúdio.

Jorge Ben contestou a semelhança, e a história passou por uma disputa sobre os
direitos da música. Há versões ligeiramente diferentes sobre o acordo, sua
cronologia e a destinação dos royalties à UNICEF. Uma
[síntese recente sobre o caso](https://digital.abcaudio.com/news/rod-stewart-admits-he-stole-one-his-signature-songs-claims-he-never-earned-penny-it)
chega a ressalvar a cronologia apresentada pelo cantor.

Não é essa parte que mais me interessa.

O que me interessa é o trajeto.

Uma música de Jorge Ben, gravada no Brasil no começo dos anos 1970, atravessa
fronteiras. Em algum momento chega aos ouvidos de Rod Stewart. Décadas depois,
três músicos japoneses a transformam novamente e ela reaparece numa coletânea
de jazz que estou ouvindo.

Eu reconheço alguma coisa.

Vou atrás.

Encontro Jorge Ben.

Conto a descoberta durante uma aula de inglês.

E meu professor coloca Rod Stewart no caminho.

É uma das coisas de que mais gosto quando começo a prestar atenção na música
para além da gravação que está tocando naquele momento. O catálogo deixa de ser
uma coleção de discos independentes e começa a parecer uma rede.

Uma música aponta para outra.

Às vezes por influência.

Às vezes por uma versão.

Às vezes por uma apropriação um pouco mais complicada.

E às vezes porque, no meio de uma aula de inglês, alguém escuta o que você
acabou de descobrir e pergunta:

— Você conhece a história do Rod Stewart?
