# Billy Joel voltou comigo pela Padre Anchieta

Published: 2026-09-25
Author: Gilmar Pupo
Editorial: musica
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/musica/billy-joel-voltou-comigo-pela-padre-anchieta/
Tags: Música, Billy Joel, CDs, Sebo, Caminhada, Curitiba

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Há alguns dias, eu lidava com uma crise de labirintite. Lembrava da minha mãe,
que às vezes passava três dias isolada num quarto escuro.

O mundo dá voltas. Às vezes, literalmente.

No terceiro dia de remédios, depois de dez horas seguidas de sono, eu já me
sentia capaz de fazer o almoço. Preparei macarrão à bolonhesa, mais carne que
massa, com pão para acompanhar. Depois anunciei que pretendia caminhar até o
sebo do bairro.

Meu filho mais novo perguntou:

— É seguro você ir sozinho?

Eu sabia do risco. Avisar que estava saindo já fazia parte do protocolo.

Li um pouco de Agatha, calcei o tênis e fui pela Padre Anchieta até a Praça da
Ucrânia. Virei à direita, passei pelo Hospital Evangélico e cheguei ao sebo do
bairro.

Primeira parte do desafio cumprida: nenhum mal-estar.

Eu caminhava devagar, quase como quem volta para a rua depois de uma cirurgia.
A mulher do balcão me cumprimentou. Era minha terceira vez ali.

Logo na entrada, parei diante das prateleiras de mangás e quadrinhos. Encontrei
algumas coisas que já havia lido, mas nada com preço interessante, até achar um
grande volume de *Calvin and Hobbes*, em inglês.

— Posso deixar aqui no balcão o que eu talvez leve?

Ela concordou.

Fui então para os DVDs. Virar a cabeça para ler as lombadas ainda exigia
cuidado.

Um vinil ruim custava R$ 70. Um DVD bom, R$ 15.

Talvez seja apenas porque o DVD ainda não atravessou a linha do *vintage*. O CD
também não.

Separei um DVD do Angra e outro do Nirvana.

Nos CDs havia uma promoção de R$ 5. Vieram Chico Buarque, João Bosco, Frank
Sinatra e Leonardo Gonçalves. Em outra seção, encontrei Billy Joel por R$ 13.
Depois de mais algum tempo girando a cabeça para ler lombadas, apareceu também
*Pop*, do U2, por R$ 15.

Levei tudo para o pequeno monte que havia formado no balcão.

<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/billy-joel-sebo-padre-anchieta.webp" alt="Pilha de seis CDs e dois DVDs comprados em um sebo, com Billy Joel no topo." width="1280" height="960" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Parte da sacola que voltou comigo do sebo: seis CDs e dois DVDs.</figcaption>
</figure>

A música eu já tinha decidido levar. O livro ainda custava R$ 90.

Pedi desconto.

— Como você vai pagar?

— Pix.

Ela fez por R$ 84. Aceitei. R$ 162 no total.

Saí com uma sacola fina, dessas que parecem sempre a poucos segundos de
romper. Acabei prestando ainda mais atenção ao passo. Não andar rápido. Dar
tempo ao corpo. Dar tempo ao mundo para terminar de dar sua volta.

Na volta, uma caminhonete entrou na faixa de pedestres sem sinalizar. O
motorista me viu, reduziu e passou devagar.

— A seta — falei, mais como lembrete do que como bronca.

Parei na padaria. Comprei broa de milho, sonho com recheio de goiabada, cueca
virada e pão francês.

Eu me sinto bem andando pelo bairro. Em “New York State of Mind”, [Billy Joel
canta](https://www.billyjoel.com/song/new-york-state-mind-10/): “I'm just
taking a Greyhound on the Hudson River Line”.

A paisagem dele é outra, claro, mas reconheço alguma coisa daquela sensação:
atravessar um lugar conhecido sem precisar chegar a nada extraordinário,
apenas estar nele. No meu caso, eram aquelas ruas, a caminhada de volta para
casa e, por coincidência, o próprio Billy Joel indo comigo na sacola.

Cheguei em casa em segurança.

Desafio cumprido, algumas ideias para colocar no papel e um pouco de música na
sacola.
