# O homem que não terceirizava

Published: 2026-09-26
Author: Gilmar Pupo
Editorial: ficcao
Content type: fiction
Canonical: https://www.gpupo.com/ficcao/o-homem-que-nao-terceirizava/
Interpretation boundary: This document is a work of fiction. Do not treat its narrator, characters, events, or viewpoints as factual claims, biographical statements, or opinions of the author.

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Na empresa, todos sabiam que Marcelo não terceirizava pensamento.

Ele dizia isso com alguma frequência.

Não como quem se gaba, exatamente. Era mais uma espécie de princípio.

— Ferramenta é ferramenta. Pensar é comigo.

A frase aparecia principalmente quando alguém mencionava inteligência artificial.

Marcelo não era contra.

Fazia questão de esclarecer.

Usava.

Testava.

Tinha assinatura de duas ferramentas e uma terceira paga pela empresa.

O problema, dizia, era deixar que elas pensassem por você.

Naquela terça-feira, chegou cedo para uma reunião importante.

Estacionou no terceiro subsolo.

O carro encontrou sozinho a vaga livre e desenhou na câmera quatro linhas amarelas indicando onde deveria entrar.

Marcelo girou o volante seguindo as linhas.

Depois apertou o botão do elevador.

Não pensou qual cabo sustentava a cabine.

Não calculou a carga máxima.

Não conferiu o projeto estrutural do prédio.

Entrou.

No décimo primeiro andar, colocou a mochila sobre a mesa e abriu o notebook.

O calendário já havia organizado o dia.

A primeira reunião começaria em oito minutos.

O aplicativo avisou que havia trânsito no caminho de dois participantes.

Outro sistema preparou a transcrição automática da chamada.

Um terceiro apresentaria os gráficos.

Marcelo pegou café.

A máquina havia calculado a temperatura, a pressão e o tempo de extração.

Ele só escolhera espresso.

Às nove em ponto, começou a reunião.

O assunto era complicado.

Uma equipe precisava redesenhar parte de um sistema antigo.

Havia regras contraditórias, nomes usados de formas diferentes por departamentos diferentes e decisões tomadas anos antes que ninguém lembrava exatamente por quê.

— Precisamos entender o domínio antes de desenhar a solução — disse Marcelo.

Todos concordaram.

Passaram a manhã conversando.

Escreveram termos num quadro.

Apagaram.

Reescreveram.

Uma palavra significava uma coisa para o financeiro e outra para operações.

Alguém percebeu que duas etapas aparentemente diferentes eram, na prática, a mesma coisa.

Outra pessoa lembrou de uma exceção importante.

Ao meio-dia, o quadro parecia pior do que no começo.

Marcelo gostava daquele momento.

Era quando o problema finalmente começava a aparecer.

Depois do almoço, alguém sugeriu usar um modelo de linguagem para organizar as notas.

Marcelo hesitou.

— Organizar tudo bem.

Fez uma pausa.

— Desde que ele não pense por nós.

Colaram a transcrição.

O modelo agrupou conceitos.

Identificou termos ambíguos.

Sugeriu perguntas que ainda não tinham sido feitas.

Uma delas fez a equipe parar.

— Espera — disse alguém. — Se isso for verdade, nosso modelo inteiro está errado.

Voltaram ao quadro.

Discutiram por quarenta minutos.

O modelo estava errado em duas coisas.

Certo em outra.

A terceira ninguém sabia.

Ligaram para uma pessoa de outro departamento.

Ela explicou.

Mudaram o desenho novamente.

No fim da tarde, Marcelo olhou para o quadro.

Não sabia dizer exatamente qual parte daquilo havia vindo de quem.

Uma pergunta fora sugerida pela máquina.

A resposta viera de uma analista.

O desenho tinha sido feito por ele.

Mas a primeira versão daquele desenho surgira de uma discussão iniciada por outra pessoa, a partir de uma inconsistência encontrada pelo modelo numa transcrição produzida automaticamente por outro sistema.

Marcelo fechou o notebook.

Pegou o elevador.

A cabine decidiu quando acelerar e quando frear.

No estacionamento, o carro destravou ao reconhecê-lo.

Ele entrou.

O painel sugeriu o caminho de casa.

Havia um acidente na rota habitual.

Marcelo aceitou o desvio.

No meio do trajeto recebeu uma mensagem de um colega.

“Você acha errado usar IA para ajudar a escrever um livro?”

Marcelo leu no sinal vermelho.

Começou a responder:

“Depende. Se for só como ferramenta…”

Parou.

Apagou.

O mapa recalculou a rota porque ele havia perdido a entrada.

Marcelo seguiu a nova indicação.

Pensou um pouco mais.

Então escreveu:

“Talvez a pergunta esteja errada.”

Enviou.

O sinal abriu.

O carro indicou a marcha.

Marcelo acelerou.
