# O sertão de Rosa, a Nova York de Billy Joel e os lugares que carregamos

Published: 2026-09-28
Author: Gilmar Pupo
Editorial: escrita
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/escrita/o-sertao-de-rosa-a-nova-york-de-billy-joel-e-os-lugares-que-carregamos/
Tags: Guimarães Rosa, Billy Joel, Ariano Suassuna, Literatura, Música, Leitura

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O sertão metafórico de Guimarães Rosa e o *New York State of Mind*, de Billy
Joel, são da mesma natureza.

Nos dois casos, **o lugar não é necessariamente o lugar**.

O sertão pode estar aqui onde vivo.

Nova York também.

Não porque minha cidade tenha se transformado geograficamente em Minas ou
Manhattan, mas porque esses nomes podem designar algo que ultrapassa o
território de origem.

O sertão pode ser uma condição, uma travessia, uma forma de perceber o mundo.

Nova York pode ser um estado de espírito, uma disposição interior, uma maneira
de estar no mundo.

Nesse sentido, o lugar deixa de responder apenas à pergunta **“onde estou?”** e
passa a responder também a outra:

**“De que lugar estou vendo o mundo?”**

É possível estar em Nova York sem estar em Nova York.

É possível estar no sertão sem estar no sertão.

A geografia permanece, mas o lugar já se tornou outra coisa.

<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/grande-sertao-veredas-vitor-1234.webp" alt="Uma vereda atravessa a vegetação sob o céu azul no Parque Nacional Grande Sertão Veredas." width="1280" height="960" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Uma vereda no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Minas Gerais. Foto: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Grande_Sertao_Veredas_1.jpg">Vitor 1234/Wikimedia Commons</a>, <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/">CC BY-SA 3.0</a>; imagem convertida para WebP.</figcaption>
</figure>

Por isso, muitas vezes estou no Nordeste de Ariano Suassuna e do *Romance d’A
Pedra do Reino*, mesmo sem ter saído de Curitiba.

Vejo esta cidade se dividindo entre um cordão azul e um cordão encarnado.
Reconheço nela fidalgos, profetas, corregedores, cavaleiros, disputas de reino e
pequenas cortes improvisadas. Não porque essas coisas estejam literalmente
diante de mim, mas porque aquele sertão me forneceu uma linguagem para enxergar
o lugar onde estou.

É nesse sentido que o lugar não é necessariamente o lugar.

O sertão de Rosa pode estar aqui. O Nordeste mítico de Ariano também.

E Nova York pode surgir numa música de Leroy Hutson, mesmo que a música não
fale de Nova York.

Porque, a certa altura, Nova York já não é apenas Nova York. É uma luz, um
ritmo, uma noite, uma determinada sensação de cidade. Assim como o sertão já
não precisa ser uma coordenada no mapa para que eu o reconheça.

Talvez seja esse o ponto: depois que certos lugares entram em nós pela
literatura, pela música ou pela memória, eles se desprendem parcialmente de sua
geografia.

Passamos a encontrá-los em outros lugares.

Às vezes, até onde sempre estivemos.
