# O que Murakami mudou na minha escrita: ritmo, imitação e memória

Published: 2026-09-19
Author: Gilmar Pupo
Editorial: escrita
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/escrita/o-que-murakami-mudou-na-minha-escrita/
Tags: Haruki Murakami, Escrita, Literatura, Processo criativo, Leitura

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Revisando as notas que escrevi nos últimos meses, vejo que Haruki Murakami foi
importante para a maneira como passei a pensar minha própria escrita.

Eu o li por dois caminhos diferentes. Em *Novelist as a Vocation*, encontrei um
escritor falando sobre o próprio ofício. Em *Kafka à Beira-Mar*, encontrei o
romancista em ação. Quando reuni as anotações dessas duas leituras, percebi que
elas já tinham escapado dos livros e entrado nos meus rascunhos.

Uma ideia sobre o ritmo lento do romancista reapareceu quando tentei escrever
ficção. Uma referência musical de *Kafka à Beira-Mar* me levou a Schubert,
Beethoven e Beach Boys. A fuga do adolescente Kafka me levou a Truffaut. Um
filme de Truffaut me devolveu a uma sala de aula no Paraná, em 1993.

Eu não percebi essa influência de uma vez. Ela ficou mais clara agora, na
revisão. Murakami mudou não apenas algumas coisas que eu queria escrever, mas o
modo como passei a ler, ouvir música, rever memórias e admitir minhas
imitações. Este texto é uma tentativa de entender esse percurso. Não é uma
teoria geral da escrita nem um guia para escrever como Murakami. É o que
consigo sustentar a partir das notas e rascunhos que produzi.

## Subir a montanha em vez de explicá-la

Uma imagem reaparece nas anotações sobre *Novelist as a Vocation*: a parábola
do Monte Fuji.

Dois homens querem compreender a montanha. Um a observa de diferentes ângulos,
compara as vistas e chega rapidamente a uma conclusão. Para o outro, olhar não
basta. Ele começa a subir, atravessa caminhos difíceis e só depois da
experiência física considera que compreendeu alguma coisa — ainda que não
consiga explicá-la por completo.

Na forma como registrei a passagem, Murakami aproxima o romancista do segundo
homem. A ficção não seria apenas uma maneira mais demorada de apresentar uma
conclusão já disponível. Parte da compreensão aparece enquanto se percorre o
caminho.

Relendo isso, reconheço um conflito com meu trabalho em tecnologia e
consultoria. Nesses ambientes, decompor um problema, encontrar um modelo e
chegar mais depressa a uma decisão costuma ser uma qualidade. Quando tento
escrever ficção, a mesma agilidade pode antecipar uma explicação que o texto
ainda não viveu.

Subir a montanha, para mim, passou a significar tolerar cenas que ainda não
revelaram sua função, acompanhar uma memória até onde ela consegue ir e aceitar
que escrever também é uma forma de descobrir o assunto.

Isso não é uma defesa da lentidão em toda escrita. Um relatório e um romance
não prometem a mesma experiência. A distinção que ficou comigo foi outra: há
coisas que consigo resumir depois de compreendê-las e há coisas que só começo a
compreender porque tentei narrá-las.

## Escrever também exige corpo e tempo

Em outra página, anotei que escrever um romance durante quatro ou cinco horas
por dia exige condição física. A ideia parecia lateral. Agora me parece ligada
à mesma imagem da montanha.

Murakami fala de rotina, solidão, paciência e resistência. A página pode ser
mental, mas o trabalho acontece num corpo que se cansa, precisa sustentar a
atenção e voltar no dia seguinte. A apresentação de *Novelist as a Vocation*
pela editora também destaca a relação entre seu método de escrita, memória e
rotina de corrida.

Eu ainda não transformei isso num método próprio. Não medi horas, produção
diária ou o efeito do exercício sobre meus rascunhos. A anotação não comprova
que determinada rotina funcionaria para mim.

O que ela mudou foi minha desconfiança de um processo dependente apenas de
entusiasmo. Se escrever um texto longo é atravessar a montanha, a inspiração
não substitui a capacidade de continuar andando.

Também comecei a aceitar melhor uma diferença de cadência. Eu havia descrito a
cadência do romancista como lenta e calma, não por falta de clareza, mas porque
a matéria precisa permanecer algum tempo sem ser encerrada. Relendo essa ideia,
vejo nela uma permissão para não exigir que todo rascunho saiba imediatamente o
que quer dizer.

## Nem tudo que anoto permanece vivo

É nesse ponto que a leitura de Murakami mais entra em conflito com meu modo de
trabalhar. Eu mantenho um vault no Obsidian, faço fichamentos, relaciono
referências e registro ideias antes que desapareçam. Ele descreve uma confiança
maior na memória.

Em *Novelist as a Vocation*, a memória aparece como uma espécie de arquivo
mental. Detalhes, rostos, conversas e sensações permanecem ali, decantando. Na
minha leitura, o esquecimento funciona como filtro: aquilo que não resiste
talvez não tivesse força suficiente; o que importa pode reaparecer quando a
escrita precisar.

Minha resposta não foi abandonar as notas. Elas preservam fontes, distinguem
uma ideia minha de algo lido e me permitem retomar um assunto meses depois.
Este próprio texto só existe porque encontrei registros espalhados entre
literatura, escrita, música, cinema e diário.

Mas, ao revisá-los, ficou mais claro que guardar uma observação não a torna
importante. Criar links não produz, por si só, uma história. A nota conserva o
material; o tempo, a memória e a reescrita mostram se ele continua vivo.

Não preciso escolher entre o arquivo mental descrito por Murakami e meu vault.
Posso registrar com rigor sem obrigar cada fragmento a entrar num texto.
Algumas coisas ficam no arquivo. Outras voltam sozinhas e pedem outra forma.

## Imitar deixou de ser uma acusação

Foi nos rascunhos que reconheci a mudança mais pessoal: comecei a admitir a
imitação.

Durante a leitura, anotei uma pergunta: se reconheço uma obra clássica porque
somente aquele autor poderia tê-la escrito, o que eu poderia escrever que
somente eu escreveria? A pergunta ainda me interessa, mas agora percebo como
ela pode se transformar numa exigência paralisante de originalidade anterior à
prática.

Eu havia registrado duas ideias que pareciam apontar em direções opostas. De um
lado, uma obra original cria sua própria lógica e muda o campo ao redor. O
exemplo anotado foi *A Sagração da Primavera*, de Stravinsky: uma obra cuja
novidade não se resume a parecer diferente. De outro, a formação de um escritor
inclui leitura, tradução, absorção de ritmo e contato prolongado com outras
vozes.

Murakami descreve a tradução como uma forma de desmontar uma máquina para
entender seu funcionamento e depois montá-la novamente. Ao traduzir autores
como F. Scott Fitzgerald e Raymond Carver, ele estudava estrutura, escolha de
palavras e pulsação. Na minha leitura, a tradução aparece menos como submissão
a outra voz e mais como treino de atenção.

Isso me ajudou a trocar uma pergunta impossível — “isto já nasceu original?” —
por perguntas mais concretas: o que estou imitando, qual mecanismo estou
tentando compreender e o que acontece quando esse mecanismo encontra a minha
matéria?

Um dos meus rascunhos mostra o risco da imitação superficial. Nele, um garoto
de quatorze anos observa o plebiscito brasileiro de 1993 enquanto um Corvo fala
com ele pela janela. Há uma floresta a atravessar e frases que poderiam ter
escapado diretamente do universo de *Kafka à Beira-Mar*. Eu havia identificado
o texto como um exercício em “estilo Haruki Murakami”. Ele tornou a influência
visível, mas deixou o mecanismo exposto demais.

Em outro rascunho, chamado *O corte do papel*, a influência começa a encontrar
um material que é meu. A narrativa parte do prontuário que imprimi para
controlar os colírios de um cachorro com lesão na córnea. O som da régua
cortando o papel leva a uma noite mal dormida, a um sonho em que duas guitarras
são quebradas, a *Os Incompreendidos* e *Antoine e Colette*, de François
Truffaut, e finalmente à lembrança de um professor que, em 1993, ensinava a
cortar papel e defendia a monarquia durante o plebiscito.

A lógica associativa e a presença do sonho ainda mostram minha leitura de
Murakami. Mas o cachorro, as guitarras, o pão de queijo, o frio da sala, o
professor e o plebiscito pertencem à minha experiência. Ao colocar os dois
rascunhos lado a lado, esse deslocamento me pareceu mais fértil: não esconder a
influência, mas deixar que ela atravesse um material que não poderia vir do
autor imitado.

O segundo texto também não está resolvido. Continua como rascunho, com
repetições, desvios e trechos a revisar. A influência não produziu uma voz
pronta. Produziu trabalho que agora consigo examinar.

## Uma leitura foi abrindo outras

Quando agrupei as anotações de *Kafka à Beira-Mar*, encontrei uma lista extensa:
Schubert, Beethoven, Haydn, Mozart, Prince, Radiohead, Beatles, Duke Ellington,
Bob Dylan, Beach Boys e Otis Redding. Também havia Sófocles, Franz Kafka, Edgar
Allan Poe, Platão e Truffaut.

Sem a revisão, essa lista poderia continuar parecendo apenas um inventário
cultural. O que vejo agora é o caminho aberto entre as referências. A Sonata em
Ré Maior D. 850, de Schubert, reapareceu numa nota sobre imperfeição. A fuga de
Kafka Tamura aproximou-se de Antoine Doinel. Ao assistir aos filmes de
Truffaut, relacionei a idade dos personagens, a idade da minha mãe e a figura de
um professor da adolescência.

Foi assim que comecei a entender uma forma prática de influência. Um livro não
entrega somente temas e recursos para copiar. Ele reorganiza minha atenção.
Certas músicas, filmes e lembranças ganham passagem porque uma leitura anterior
abriu a porta.

O conto *On Seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning* reforçou
outra percepção. Uma situação pequena pode conter uma história interna muito
maior. Um encontro que não acontece carrega uma narrativa imaginada sobre duas
pessoas, separação, memória e reconhecimento. Depois de ler e ouvir o conto,
passei a prestar mais atenção ao que uma cena cotidiana pode conter mesmo
quando seus personagens não realizam aquela possibilidade.

## O ritmo que a imitação não reproduz

Entre as anotações sobre tradução, uma palavra se repete: ritmo. Traduzir não
seria apenas substituir unidades de uma língua por unidades de outra, mas
perceber a pulsação do texto e reconstruí-la. Essa ideia acabou oferecendo um
critério para reler minha própria prosa.

Nos dois rascunhos, ficou mais fácil distinguir atmosfera de ornamentação. Um
corvo, uma floresta e uma frase enigmática produzem sinais reconhecíveis de
Murakami. Eles não reproduzem o ritmo que torna esses elementos necessários.
Já uma sequência aparentemente irregular — corte do papel, sonho, café, filme,
memória escolar — pode encontrar um ritmo se cada passagem preparar a próxima e
se a voz sustentar o movimento.

Ainda preciso trabalhar essa continuidade. O rascunho acumula material mais
depressa do que decide o que permanece. O que extraio da leitura não é
“escreva de modo estranho”, mas uma atenção maior à relação entre as partes.
O ritmo me ajuda a perguntar quando desenvolver uma associação, quando
interrompê-la e quando uma imagem está ali apenas porque lembra outro escritor.

## Ainda estou descobrindo para quem escrevo

No fim dessa revisão, encontrei duas notas muito curtas. A primeira diz que
importam os bons leitores, não os prêmios nem as pessoas que não leem. A segunda
pergunta: para quem eu escrevo?

Eu ainda não tenho uma resposta. Quando coloco as duas frases juntas, porém,
elas deslocam minha preocupação com uma aprovação genérica. Um bom leitor não
precisa gostar de tudo; precisa encontrar no texto atenção suficiente para
levá-lo a sério. Isso aumenta, e não reduz, minha responsabilidade com a
escrita.

Hoje consigo nomear com mais clareza o efeito de Murakami sobre mim. Passei a
ler com mais abertura para referências laterais, a aceitar melhor a lentidão da
ficção, a tratar corpo e rotina como parte do trabalho, a desconfiar de que
arquivar seja o mesmo que elaborar e a não considerar imitação uma falha que
precisa ser escondida.

O próximo passo continua nos rascunhos. Quero retirar deles os sinais
emprestados que apenas anunciam uma influência e preservar o que essa leitura
me ajudou a enxergar: o som seco do papel, duas guitarras quebradas num sonho,
uma sessão de Truffaut às 2h40 e um professor que ensinava a usar uma régua
enquanto o Brasil discutia a volta da monarquia.

Esse material ainda não é uma obra. Mas, depois de revisar o caminho que me
trouxe até ele, já consigo reconhecê-lo como matéria minha.

## Referências

- MURAKAMI, Haruki. *Novelist as a Vocation*. Tradução de Philip Gabriel e Ted
  Goossen. Knopf, 2022. Publicado originalmente em japonês em 2015. [Edição e
  apresentação da Penguin Random House](https://www.penguinrandomhouse.com/books/547926/novelist-as-a-vocation-by-haruki-murakami/).
- MURAKAMI, Haruki. *Kafka on the Shore*. Tradução de Philip Gabriel. Vintage,
  2006. [Edição e apresentação da Penguin Random House](https://www.penguinrandomhouse.com/books/118718/kafka-on-the-shore-by-haruki-murakami/).
- MURAKAMI, Haruki. “On Seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April
  Morning”. In: *The Elephant Vanishes*.
- Anotações e rascunhos pessoais produzidos entre janeiro e setembro de 2026.
