# O instrumento não termina na regulagem

Published: 2026-10-04
Author: Gilmar Pupo
Editorial: equipamento
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/equipamento-musical/o-instrumento-nao-termina-na-regulagem/
Tags: Equipamento musical, Guitarra, Regulagem, Tocabilidade, Ronnie Wood, Bo Diddley

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Durante uma aula, meu professor comentou uma coisa que parece estranha à
primeira vista: uma guitarra pode parecer perfeitamente afinada na mão de uma
pessoa e ligeiramente desafinada na mão de outra.

Não porque a afinação tenha misteriosamente mudado, mas porque **o músico faz
parte do sistema**.

A força com que apertamos uma corda contra o traste interfere na altura da
nota. Apertar além do necessário pode [aumentar a tensão da
corda](https://doi.org/10.1371/journal.pone.0184803) e fazer a nota subir um
pouco. A própria palhetada também tem efeito: um ataque mais forte desloca mais
a corda e pode produzir uma elevação transitória no início da nota, o
[*pitch glide* descrito em estudos de cordas
dedilhadas](https://www.dafx.de/paper-archive/details/hCfsdc26bZYdrYYFI2CHnw).
Some-se a isso a forma de apoiar a mão, de segurar o braço, o calibre das
cordas, a altura delas em relação aos trastes e a maneira como cada músico
executa *bends* e vibratos.

Ou seja: duas pessoas podem pegar o mesmo instrumento, poucos segundos uma
depois da outra, e ter experiências diferentes com sua afinação, sua dinâmica e
sua tocabilidade.

## A guitarra de Bo Diddley

Isso me lembrou de uma passagem da autobiografia de Ronnie Wood.


<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/equipamento-musical/o-instrumento-nao-termina-na-regulagem/ronnie-the-autobiography-capa.webp" alt="Capa de Ronnie: The Autobiography, com Ronnie Wood segurando a gola do casaco diante de um fundo escuro." width="363" height="550" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Capa da edição inglesa de <em>Ronnie: The Autobiography</em> usada como referência.</figcaption>
</figure>

No capítulo **“Gunslingers”**, Wood fala sobre tocar com Bo Diddley e descreve a
guitarra de Bo. Era um instrumento retangular, pesado, feito à mão e cheio de
eletrônica interna. Mas o que chama atenção é a regulagem: Wood conta que Bo
usava cordas extremamente grossas, difíceis de dobrar, colocadas muito acima do
braço. Além disso, tocava com afinação aberta.

A conclusão de Wood é curta:

> “No easy feat, believe me.”

Em português: **não era tarefa fácil, acredite em mim**.

A passagem está em *Ronnie: The Autobiography*, no capítulo “Gunslingers”, p.
258 da edição inglesa. Wood [já havia passado pelo Jeff Beck Group e pelo Faces
e entrado nos Rolling Stones em
1975](https://ronniewood.com/about/). Mesmo assim, olhava para aquele instrumento
e reconhecia uma dificuldade muito particular.

Isso ajuda a desmontar outra ideia comum: a de que existe uma regulagem
universalmente “boa”.

Podemos medir ação, oitavas, raio, curvatura do braço, altura dos captadores e
dezenas de outras coisas. Existem, evidentemente, parâmetros técnicos e limites
razoáveis. Mas, depois deles, aparece o músico.

Uma ação baixíssima pode ser maravilhosa para quem toca com ataque leve e
simplesmente insuportável para quem toca forte. Cordas pesadas podem parecer
duras e desnecessárias para alguém e perfeitamente naturais para quem passou
décadas tocando assim. Um braço considerado grosso por um guitarrista pode ser
justamente aquilo que outro procura.

Até aquilo que chamamos de conforto é aprendido.

Bo Diddley não estava tentando transformar sua guitarra numa guitarra
confortável para Ronnie Wood. **Era a guitarra de Bo Diddley.** O instrumento, a
regulagem e a técnica tinham crescido juntos.

## Regulada para quem?

É aí que a observação sobre afinação fica ainda mais interessante.

Quando levamos uma guitarra ao luthier e dizemos “quero ela perfeitamente
regulada”, falta uma informação importante: **regulada para quem?**

Um bom ajuste não deveria considerar apenas medidas abstratas. Deveria
considerar também como o músico toca: quanto aperta as cordas, quão forte ataca,
onde costuma tocar, quais calibres prefere e até qual comportamento espera do
instrumento.

Talvez isso explique também por que às vezes pegamos a guitarra de alguém que
admiramos e pensamos:

— Como essa pessoa consegue tocar nisso?

E provavelmente, se ela pegar a nossa, poderá pensar exatamente a mesma coisa.

Um instrumento bom não é necessariamente aquele que ficou mais próximo de algum
ajuste ideal.

É aquele em que **instrumento, regulagem e músico aprenderam a funcionar
juntos**.

## Referências

- WOOD, Ronnie. [*Ronnie: The
  Autobiography*](https://books.google.com/books/about/Ronnie.html?id=w1uevnxwnTMC).
  Londres: Macmillan, 2007. Capítulo “Gunslingers”, p. 258.
- GRIMES, David Robert. [*String Theory: The Physics of String-Bending and Other
  Electric Guitar
  Techniques*](https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0102088).
  PLOS ONE, v. 9, n. 7, 2014.
- KEMP, Jonathan A. [*The physics of unwound and wound strings on the electric
  guitar applied to the pitch intervals produced by tremolo/vibrato arm
  systems*](https://journals.plos.org/plosone/doi?id=10.1371/journal.pone.0184803).
  PLOS ONE, v. 12, n. 9, 2017.
- LEE, Nelson; SMITH III, Julius O.; ABEL, Jonathan; BERNERS, David. [*Pitch
  glide analysis and synthesis from recorded
  tones*](https://www.dafx.de/paper-archive/details/hCfsdc26bZYdrYYFI2CHnw).
  Proceedings of DAFx-09, Como, 2009.

A edição brasileira foi publicada como *Ron Wood: A autobiografia de um Rolling
Stone*, pela Évora, em 2013, com tradução de Guy Corrêa.
