# Minha primeira guitarra, um cubo pesado e dois pedais usados

Published: 2026-10-03
Author: Gilmar Pupo
Editorial: equipamento
Content type: essay
Canonical: https://www.gpupo.com/equipamento-musical/minha-primeira-guitarra-um-cubo-pesado-e-dois-pedais-usados/
Tags: Equipamento musical, Guitarra, Memória, Anos 1990, Cascavel

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Não tenho uma fotografia completa do meu primeiro equipamento de guitarra
montado. Também não guardei nota fiscal, manual ou uma lista com cada modelo. O
que tenho são algumas datas, imagens de referência e lembranças que voltam aos
poucos.

Uma dessas datas é bastante precisa: minha primeira CNH foi expedida em 1995. É por ela que consigo localizar aquele período. Foi durante o ano de 1995 que comecei a ter aulas de guitarra com meu
primeiro professor, **Cassiano Nogara**, e que comprei minha primeira guitarra e
meu primeiro amplificador.

## Uma Golden comprada na Avenida Brasil

Minha primeira guitarra foi uma **Golden**, comprada na **Art e Som**, loja que
ficava na Avenida Brasil, em Cascavel, no Paraná.

Era a guitarra com a qual eu estava começando
a aprender de verdade.


<figure class="editorial-photo">
  <img src="/assets/images/equipamento-musical/primeiro-equipamento/primeira-guitarra.webp" alt="Guitarra elétrica azul pendurada na parede, entre outras guitarras; modelo Golden GH 66." width="1799" height="2400" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>A guitarra azul Golden GH 66</figcaption>
</figure>

Era o instrumento das primeiras aulas, das primeiras tentativas de fazer os
acordes soarem limpos e da descoberta de que tocar guitarra era muito diferente
de apenas gostar do som de uma guitarra.

Nas primeiras aulas com Cassiano, aprendi a linha melódica de *Liberty*, de
Steve Vai, e a tocar *Patience*, do Guns N' Roses. Também aprendi a forma do
blues tradicional. Fora das aulas, amigos como Kris me ensinavam riffs. Um deles
foi o de *Paranoid*, do Black Sabbath.

Naquela época, comprar o instrumento era apenas o começo. Eu também precisava
de alguma coisa que transformasse o sinal da guitarra em som dentro do quarto.

## O cubo ATTACK de 100 watts

Na mesma loja comprei um cubo de guitarra **ATTACK Audio System**.  Minha lembrança é de
que tinha **100 watts**.


<figure class="editorial-photo editorial-photo--reference">
  <img src="/assets/images/equipamento-musical/primeiro-equipamento/attack-wg-400.webp" alt="Amplificador ATTACK Audio System preto, aparentemente modelo WG-400, visto de frente." width="900" height="1106" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Referência visual do ATTACK Audio System.</figcaption>
</figure>

O cubo era grande, muito pesado e, para ser honesto, um pouco sem graça.

Hoje consigo olhar para isso com alguma ternura. Quando estamos começando,
potência parece uma qualidade absoluta. Cem watts soam como a promessa de que
não vai faltar amplificador. Só mais tarde começamos a perceber que volume,
timbre, dinâmica e prazer de tocar não são a mesma coisa.

O ATTACK talvez não fosse um amplificador inspirador, mas cumpriu uma função
decisiva: fez a guitarra existir no ambiente. A partir dele, o que antes estava
apenas nos discos e na imaginação podia sair de um alto-falante diante de mim,
ainda que o som não fosse exatamente aquele que eu procurava.

## O pedal que não podia ser desligado

Em algum momento daquela fase consegui também um pedal de distorção usado, um
**Oliver DS-10 Distortion**.


<figure class="editorial-photo editorial-photo--reference">
  <img src="/assets/images/equipamento-musical/primeiro-equipamento/oliver-ds-10.webp" alt="Pedal Oliver DS-10 Distortion preto com três controles laranja, conectado por cabos." width="632" height="688" loading="lazy" decoding="async">
  <figcaption>Referência visual do Oliver DS-10 Distortion, com controles de nível, distorção e tonalidade.</figcaption>
</figure>

O meu exemplar tinha um defeito muito particular: ele não podia ser desligado.

Se eu apertasse o pedal para desativá-lo, o som era cortado. Quando o ligava
novamente, precisava esperar aproximadamente dez minutos para que o sinal
voltasse. Não era exatamente a praticidade que se espera de um pedal de efeito.

Por isso desenvolvi uma solução simples: deixava o pedal ligado e usava o
potenciômetro de distorção para decidir quanto efeito queria. Na prática, eu não
alternava entre pedal ligado e desligado; alternava entre mais e menos distorção
girando o controle.

Era uma gambiarra, mas também era uma pequena aula sobre equipamento musical.
Antes de entender circuitos, *bypass* ou manutenção, eu já estava aprendendo que
tocar envolve adaptar-se ao que está disponível. O equipamento tinha um
defeito, então a maneira de usá-lo passou a incorporar esse defeito.

Hoje o Oliver DS-10 aparece para mim como um objeto cheio de personalidade. Não
porque aquele exemplar funcionasse bem — claramente não funcionava —, mas
porque exigia um ritual. Ligar, esperar e não desligar. Depois, controlar tudo
pelo botão.

## Um delay simples de que ainda me lembro

Também tive um pedal de delay comprado de **Kristopher Venzke**, em Cascavel.

Esse pedal já era muito usado e parecia bastante simples. Não me lembro da
marca nem do modelo. Tenho a impressão de que era analógico, mas isso permanece
apenas como uma hipótese baseada na lembrança do equipamento e do efeito.

Curiosamente, a falta de identificação técnica não diminui a memória que tenho
dele. Ao contrário do amplificador, que ficou associado ao peso e a um som pouco
interessante, o delay ficou associado a boas recordações.

Talvez fosse a primeira vez que eu ouvia uma nota tocada por mim voltar alguns
instantes depois. Um delay transforma uma frase pequena em espaço. A guitarra
deixa de ocupar apenas o instante do ataque e começa a conversar consigo mesma.
Para quem está descobrindo efeitos, mesmo um pedal simples pode abrir um mundo.

Não sei dizer hoje qual era o circuito, qual era o tempo máximo de repetição ou
quantos controles havia no painel. Lembro do resultado: eu gostava daqueles
efeitos.

## Onde foram parar os pedais e o amplificador?

Não sei. Também não me lembro de nada sobre o destino deles.

Naquela época eu ainda não entendia [o valor de
anotar](/posts/por-que-anotar/). Não registrei quando deixei de usar o
amplificador nem o que aconteceu com o Oliver e o delay. Sem esse registro,
essa parte da história se perdeu.

Em 2025, esse começo completou três décadas. Embora eu não saiba onde foram
parar os pedais e o amplificador, ainda guardo uma peça daquela época: minha
primeira palheta, uma Dunlop Tortex já gasta.

## O primeiro equipamento nunca é apenas equipamento

Quando tento reconstruir esse conjunto, ele fica mais ou menos assim:

- uma guitarra Golden;
- um cubo ATTACK grande, pesado e sem muita personalidade;
- um Oliver DS-10 que não podia ser desligado;
- um pedal de delay muito usado, provavelmente analógico e de modelo
  desconhecido.

Visto como uma lista de compras, não parece um equipamento especialmente
sofisticado. Havia incertezas, limitações e pelo menos um defeito bastante
sério.

Mas o primeiro equipamento raramente é importante porque reúne as melhores
especificações. Ele é importante porque está presente quando ainda estamos
descobrindo o que queremos fazer.

Foi com esse conjunto imperfeito que comecei a entender a relação entre as
mãos, o instrumento, o amplificador e os efeitos. A distorção não era apenas um
som ouvido numa gravação: estava naquele botão laranja que eu precisava
controlar com cuidado. O delay não era uma palavra numa revista: era a repetição
que aparecia depois da nota. O amplificador não era apenas potência: era também
peso, volume e personalidade — ou a falta dela.

As fotografias ajudam a reconstruir a aparência dos objetos, mas não são
exatamente o centro da lembrança. O que permanece é a sensação de estar no
começo, tentando fazer música com aquilo que eu tinha.

Talvez seja isso que torna o primeiro equipamento inesquecível. Não era o
melhor conjunto que eu teria. Era o conjunto com o qual tudo começou.
