Jeff mais leve que o ar

A febre do ouro


Conheça a história

Jeff White é um menino autista que ao voltar da escola encontra a mãe enforcada.

Com o pai desaparecido, precisa sobreviver em um mundo sem lei, no século XIX. O garoto que trilha seu caminho, descobre novos amigos e aprende enquanto escreve uma história de fantasia em seu caderno. Seu pensamento leve, mais Leve que o ar, tem uma perspectiva diferente sobre acontecimentos de sua vida e valores de uma civilização. Comece a leitura.

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A Espera

Para quem nada tem, a espera acaba sendo um fardo de presença marcante e trazendo consigo suas comorbidades compulsivas.

Uma olhada no horizonte, outra na estrada de chão com lombadas cor de areia. O algodão ainda está guardado dentro de seus botões, e o silêncio é extremamente desconfortável. Até que este lugar é bem nobre. O algodão é muito importante para as roupas simples com qualidade, e as lombadas da estrada me lembram da infância .

Mais uma olhada no horizonte, na estrada, no algodão.

A árvore sob a qual estou faz uma ampla sombra que chega até o meio da estrada. Ouço os pássaros discutirem por algo lá no alto, mas falta luz para vê-los. Tem uma pedra alisada pelo tempo e onde muita gente já se sentou. Pessoas pobres e também ricas, sábias e ignorantes. A pedra não faz acepção de pessoas.

Essa mecha de cabelo ainda me incomoda, e eu deveria tê-la cortado. Até que eu poderia conseguir algo cortante aqui, lascando uma pedra ou algo assim, o que implicaria tirar os olhos do horizonte … da estrada … do algodão.

A espera é um hóspede incômodo, não acha? Impaciente com o ócio e desconfortável com o entretenimento. Talvez nos próximos segundos, eles emerjam da linha do horizonte, durante o tempo em que eu contar até dez. Um, dois … dez.

Eu tenho um graveto cuja ponta parece o dente de uma engrenagem. Se eu tivesse mais gravetos iguais a este, eu poderia uni-los. Seria uma engrenagem perfeita. Vejo a engrenagem projetada; encaixando-se em uma corrente contínua. A imagem é reconfortante, com cada dente em seu devido compasso e movimento contínuo. Alguns movimentos não param depois de iniciados. Por um instante, quase me esqueço de olhar o horizonte, a estrada e o algodão.

Deveríamos ter partido a pelo menos um mês. Dez minutos. Sério? O horário foi combinado e mesmo assim eles demonstram desrespeito. Isto não está certo. Estou perdendo meu tempo.

Uma engrenagem tem movimentos circulares perfeitos, cada dente em seu devido quadrante. Eles já deveriam estar neste quadrante.

Ironia

Li que a palavra ironia vem do grego eironeia e quer dizer perguntar fingindo não saber a resposta. Eu particularmente traduzo como “dissimulação”. Eu não sei ser sarcástico e dificilmente sei ser engraçado. Também não consigo manipular pessoas nem detectar a ironia das frases. Isso é uma ciência muito complexa pra mim. Meu nome é Jefferson e a coisa mais legal que existe no mundo é a comida.

Eu almoçava todos os dias pontualmente às 11h45.

— Que pessoa educada. Entrou sem cumprimentar ninguém! Olha pra mim aqui! — dizia minha mãe quando eu chegava para o almoço. Eu olhava para ela. Éramos somente nós dois na mesa de madeira que ficava na varanda da casa: eu olhando para a comida e para as galinhas que ciscavam o terreiro a nossa volta, e minha mãe olhando para frente, para o infinito.

Depois de ter partido com um grupo de homens e suas mochilas, meu pai não dava notícias há meses.

— Jeff, o lugar é fácil de encontrar ouro! Eu vou juntar um saco de ouro, e vamos comprar o que quisermos para o resto da vida, você vai ver! — dizia ele enquanto me erguia pelos braços.

Eu pensava que seria legal comprar muitos doces e um pônei. Não me lembro bem do rosto dele para descrevê-lo melhor.

Minha mãe fazia o serviço da casa, cuidava dos animais e lia o mesmo livro, sempre. Meu pai tinha lhe deixado um bom dinheiro que ela guardava dentro do colchão velho que ficava no quarto de hóspedes. Ela não desconfiava que eu sabia disso.

Depois do almoço eu pegava minha bolsa de couro, colocava sobre os ombros e ia sozinho para a escola. O caminho era simples, era só sair de casa, seguir uma linha pela estrada ao lado do canavial — andando por bastante tempo, tanto tempo que eu sentia coceiras nas pernas — , virar à direita na igrejinha abandonada e andar mais um bom tempo até chegar ao portão amarelo de madeira. Não me lembro bem do que acontecia lá mas me lembro de que o pátio da escola era cheio de crianças antes do início das aulas. Me lembro da angústia por ter que ficar lá. Me lembro da vez em que uma criança grande passou por cima de mim enquanto perseguia alguém em uma brincadeira que não fazia sentido para mim.

Eu voltava da escola, deixava minha bota do lado de fora da varanda sob a sombra da laranjeira, deixava a bolsa no meu quarto, comia biscoitos e tomava um copo de leite. Pontualmente às 18h30.

Certo dia, quando eu voltei da escola, encontrei minha mãe pendurada em um galho da laranjeira por uma corda amarrada ao seu pescoço.

Olhei para ela. Deixei minha bota do lado de fora da varanda, a bolsa no meu quarto, comi biscoitos e tomei um copo de leite.

Pontualmente às 18h30.

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