# Perguntas para fazer ao recrutador — e como avaliar as respostas

Published: 2023-05-18
Author: Gilmar Pupo
Canonical: https://www.gpupo.com/artigos/27-perguntas-valiosas-para-fazer-ao-recrutador-durante-a-entrevista/
Tags: Carreira

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Uma lista com 27 perguntas pode parecer preparação. Feita sem prioridade, ela
transforma os minutos finais da entrevista em um questionário e ainda deixa o
candidato sem a informação necessária para decidir.

A entrevista tem duas direções. A empresa avalia se quer contratar; o candidato
avalia se quer trabalhar ali. Quando participo como recrutador, considero
importante reservar espaço para essa segunda avaliação. A qualidade da conversa
melhora quando a pergunta nasce de um critério real, e não da tentativa de
parecer interessado.

Eu levaria poucas perguntas e escolheria cada uma pelo risco que preciso
investigar.

## Antes da entrevista, defina seus critérios

Comece separando o que é indispensável, negociável e apenas desejável. Os
critérios variam conforme o momento de vida e o tipo de vaga, mas podem incluir:

- faixa de remuneração e benefícios;
- regime de contratação;
- local e horário de trabalho;
- conteúdo real da função;
- autonomia e forma de gestão;
- frequência de plantões ou incidentes;
- oportunidades de aprendizado;
- estabilidade financeira da empresa;
- acessibilidade e adaptações necessárias.

Esse exercício evita duas falhas comuns. A primeira é gastar tempo perguntando
sobre um benefício secundário e sair sem entender a responsabilidade da vaga. A
segunda é aceitar uma resposta vaga porque o critério nunca foi definido.

As diretrizes da Organização Internacional do Trabalho para recrutamento justo
defendem que condições, local, requisitos e tarefas sejam apresentados de forma
clara, verificável e compreensível. O documento não é uma garantia de que todo
processo seguirá esse padrão, mas oferece uma referência para o tipo de
transparência que o candidato pode pedir. ([princípios da OIT para recrutamento
justo](https://www.ilo.org/resource/ilos-2016-general-principles-and-operational-guidelines-fair-recruitment))

## Investigue o trabalho que existe, não só a descrição da vaga

Descrições costumam condensar responsabilidades diferentes em poucas linhas.
Para descobrir o trabalho cotidiano, pergunte por situações concretas:

1. **Que problema vocês esperam que esta pessoa resolva nos primeiros meses?**
2. **Quais entregas ocupam mais tempo hoje?**
3. **Por que a vaga foi aberta?**
4. **O que diferencia alguém que atende às expectativas de alguém que não
   atende?**
5. **Qual foi a última prioridade que mudou e por quê?**

Observe se as respostas descrevem resultados sob responsabilidade da pessoa ou
apenas uma lista ilimitada de atividades. Se recrutador e gestor apresentam
funções incompatíveis, isso não prova desorganização, mas é uma divergência que
precisa ser esclarecida antes da proposta.

Também vale perguntar o que **não** faz parte da vaga. Limites dizem tanto quanto
responsabilidades.

## Descubra como as decisões são tomadas

Perguntar “a empresa dá autonomia?” tende a produzir um “sim”. Perguntas sobre
decisões recentes geram evidência melhor:

- **Qual decisão esta função pode tomar sem aprovação?**
- **Quando produto, engenharia e negócio discordam, quem decide e com quais
  critérios?**
- **Pode dar um exemplo de decisão que a equipe reviu após um resultado ruim?**
- **Como prioridades e mudanças de escopo chegam à equipe?**
- **Quem fornece feedback e com que frequência?**

Uma resposta concreta não assegura que sua experiência será igual. Equipes
diferentes podem operar de maneiras diferentes dentro da mesma organização.
Sempre que possível, faça perguntas semelhantes ao recrutador, ao futuro gestor
e a alguém da equipe. O objetivo não é encontrar palavras idênticas, mas entender
se há uma realidade coerente por trás delas.

## Pergunte sobre carga, suporte e incidentes

“Como é a cultura?” é amplo demais. Transforme cultura em práticas observáveis:

- **Existe plantão? Com que frequência, qual compensação e qual volume recente
  de chamados?**
- **Como horas fora do expediente são registradas e compensadas?**
- **O que acontece quando o volume de trabalho supera a capacidade da equipe?**
- **Quantas posições estão abertas e quantas pessoas deixaram a equipe no último
  ano?**
- **Quais recursos existem para executar o trabalho: documentação, ambiente,
  orçamento e suporte de outras áreas?**

Não é necessário diagnosticar a saúde de uma organização em uma entrevista. É
possível, porém, procurar sinais do desenho do trabalho. As diretrizes da
Organização Mundial da Saúde tratam intervenções sobre condições de trabalho,
carga, participação e flexibilidade como parte da prevenção de riscos à saúde
mental. Isso torna perguntas sobre carga e controle mais informativas do que
perguntar se a empresa “se preocupa com bem-estar”. ([diretrizes da OMS sobre
saúde mental no trabalho](https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052))

## Entenda remuneração, vínculo e crescimento sem rodeios

Remuneração não deveria ser tratada como falta de interesse pelo trabalho. Ela é
uma condição da decisão.

Perguntas úteis incluem:

- **Qual é a faixa salarial e o nível desta posição?**
- **Existe remuneração variável? De quais resultados ela depende e quem os
  mede?**
- **Quais benefícios têm coparticipação, carência ou regras de elegibilidade?**
- **O regime remoto, híbrido ou presencial ficará registrado na proposta?**
- **Como promoções são decididas e qual foi o último exemplo dentro desta
  equipe?**

“Temos plano de carreira” é uma descrição de intenção. Peça critérios, processo e
exemplo. O mesmo vale para orçamento de cursos, mentoria ou participação em
eventos: confirme quem pode usar, com qual frequência e mediante qual aprovação.

Se a pessoa entrevistadora não souber todos os detalhes, isso é normal. O sinal
mais importante é se ela identifica quem pode responder e se a informação chega
antes da decisão.

## Use perguntas específicas para inclusão e segurança

Perguntar apenas se a empresa valoriza diversidade tende a confirmar o discurso
institucional. Se esse critério for importante para você, investigue mecanismos:

- **Como são definidos critérios de avaliação para reduzir decisões arbitrárias?**
- **Existe um canal para relatar discriminação ou assédio? Quem recebe e como o
  caso é acompanhado?**
- **Como a empresa trata pedidos de acessibilidade ou adaptação do trabalho?**
- **Alguma etapa usa triagem automatizada? Quais dados e critérios participam da
  decisão?**

No Brasil, a ANPD informa que o titular pode solicitar revisão de decisões
tomadas unicamente com tratamento automatizado quando elas afetam seus
interesses, inclusive na definição de perfil profissional. Esse é um direito
relacionado ao uso de dados; não significa que toda triagem automatizada seja
ilegal ou que o recrutador precise revelar propriedade intelectual. ([direitos
dos titulares de dados segundo a
ANPD](https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/titular-de-dados-1/direito-dos-titulares))

Você não precisa expor informações pessoais sensíveis para testar se o processo
é respeitoso. Pode perguntar pela política e pelos procedimentos em termos
gerais.

## Avalie a resposta em quatro dimensões

Uma boa pergunta ainda pode produzir uma resposta ensaiada. Eu registraria:

| Dimensão | O que observar |
| --- | --- |
| Especificidade | há exemplo, frequência, responsável ou critério? |
| Coerência | diferentes entrevistadores descrevem práticas compatíveis? |
| Limites | a pessoa reconhece problemas e exceções? |
| Verificabilidade | a condição aparecerá na proposta ou pode ser confirmada? |

Uma resposta imperfeita e específica pode informar mais do que uma promessa
ideal. “Ainda não temos um processo consistente; hoje o gestor faz reuniões
mensais” expõe um limite. “Nossa cultura é de feedback contínuo” não permite
saber o que acontece.

Ao final, anote também o que não foi respondido. Ausência de informação não é
prova automática de um problema, mas deve aumentar a incerteza atribuída àquela
condição.

## Escolha cinco perguntas, não uma lista inteira

Para uma primeira conversa, eu priorizaria:

1. o problema que a vaga precisa resolver;
2. a razão da abertura;
3. a forma de decidir prioridades;
4. uma condição de trabalho indispensável para você;
5. a próxima etapa e o que ainda será avaliado.

As outras perguntas podem ser distribuídas ao longo do processo. O objetivo não
é completar uma lista. É chegar à proposta sabendo quais condições foram
confirmadas, quais dependem de outra conversa e quais riscos você aceita ao
tomar a decisão.
